4 Janeiro 2018
A perca
[Martha Medeiros]


Da série “só acontece comigo”: estava parada num sinal da Avenida Ipiranga quando um carro encostou ao lado do meu. A motorista abriu a janela e pediu para eu abrir a minha. Era uma moça simpática que me perguntou: “Martha, o certo é dizer perda ou perca?”.“Hãn?”

“É perda de tempo ou perca de tempo? Como se diz?”

A pergunta era tão inusitada para a hora e o local, tão surpreendente, vinda de alguém que eu não conhecia, que me deu um branco: por um milésimo de segundo eu não soube o que responder. Perca de tempo, isso existe? Então o sinal abriu, os carros da frente começaram a engatar a primeira, eu olhei para ela e disse: “É perda de tempo”.

Ela sorriu em agradecimento e foi em frente. Meu carro ainda ficou um tempo parado. Eu parada no tempo. Perca de tempo.

Dei uma risada e segui meu rumo também.

Se alguém te diz “não perca tempo”, e todos te dizem isso o tempo todo, como não confundir? Tantos confundem. São coagidos a tal.

E, cá entre nós, a “perca” parece mais amena do que a perda.

A perca de um amor é quase tão corriqueira como a perca do capítulo da novela. A perca é feira livre. A perca é festiva. A perca é música popular.

Já a perda é sinfonia de Beethoven.

A perca acontece no verão. A perca de uma cadeirinha de praia, a perca de um palito premiado de picolé.

As perdas acontecem no inverno.

A perca é simplória, a perca é distraída, a perca é provisória, logo, logo reencontrarão o que está faltando.

A perda é para sempre.

As percas reinventam o vocabulário e seu sentido, não são graves, as percas são imperfeições perdoáveis, as percas são inocentes.

As perdas são catastróficas, nada têm de folclóricas.

A perca é um erro gramatical, e apenas esse erro ela contém. De resto, não faz mal a ninguém.

A perda é um acerto gramatical, mas só esse acerto ela contém. De resto, é brutal.

Se eu pudesse voltar no tempo, reconstituiria a cena de outra forma:

“Martha, é perda de tempo ou perca de tempo? Como é que se diz?”

“O correto é dizer perda, mas é muito solene. Perca dói menos por ser mais trivial”.

A perca [Martha Medeiros] Da série “só acontece comigo”: estava parada num sinal da Avenida Ipiranga quando um carro encostou ao lado do meu. A motorista abriu a janela e pediu para eu abrir a minha. Era uma moça simpática que me perguntou: “Martha, o certo é dizer perda ou perca?”.“Hãn?” “É perda de tempo […]

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29 Dezembro 2017

BEBEDOURO é o nome daquele aparelho com água encanada com um pequeno jato. É, portanto, o lugar onde se bebe água.

O sufixo DOURO tem origem latina e costuma indicar um lugar onde se realiza uma determinada ação. Outros exemplos seriam COMEDOURO (lugar ou recipiente onde os animais se alimentam), SUMIDOURO (abertura por onde algo se escoa ou some), MIRADOURO (o mesmo que mirante; lugar de onde se observa algo) e MATADOURO (lugar onde gados são abatidos).

Outro sufixo que também tem ideia de lugar é TÓRIO, como sanatório, escritório, refeitório, consultório etc.

A palavra BEBEDOR indica aquele que bebe. O sufixo DOR costuma expressar o agente de uma ação, como em narrador, mobilizador, lavrador, mediador, pacificador, coordenador, provedor, caçador, predador, vencedor, consumidor, traidor, orientador, morador etc.

No entanto, a troca de sufixos é comum na língua popular. Por exemplo: o ESCORREGADOR não é a pessoa que escorrega e sim o lugar onde se escorrega. O CORREDOR pode não ser somente a pessoa que corre, mas também um lugar estreito em casas e prédios. Ou seja, nem sempre a fronteira semântica é tão rígida assim.

BEBEDOURO é o nome daquele aparelho com água encanada com um pequeno jato. É, portanto, o lugar onde se bebe água. O sufixo DOURO tem origem latina e costuma indicar um lugar onde se realiza uma determinada ação. Outros exemplos seriam COMEDOURO (lugar ou recipiente onde os animais se alimentam), SUMIDOURO (abertura por onde algo […]

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31 Outubro 2017

Leia e resolva o desafio a seguir.

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Obs.: desconhecemos a autoria da imagem.

 

Escolha sua resposta e leia nosso comentário abaixo:

Copo 1 Isso dependeria de todos os outros estarem cheios, o que não vai acontecer, já que o copo 7 está furado.
Copo 2 Nunca vai encher, porque vaza pelo furo do copo 7.
Copo 3 O copo 3 não leva para o 4 porque está fechado e não leva para o 5 porque o fim do cano está fechado. Como o líquido do copo 1 vem para o 3 primeiro e ele não tem vazão para nenhum outro copo, ele será o primeiro a ficar cheio. Esta é a resposta correta!
Copo 4 Permanece vazio porque o copo 3 está fechado, portanto nenhum líquido chega ao copo 4.
Copo 5 O fim do cano do copo 3 está fechado, portanto nada vaza para o 5.
Copo 6 Não há torneira aberta levando ao copo 6. Ele permanece vazio.
Copo 7 Está furado.
“Depende da vazão da torneira” Errado. Sua tarefa era resolver a atividade com as informações disponíveis. Analise a imagem novamente.

Como vocês puderam ver, a resposta era: copo 3.

Acertou de primeira?

Em caso afirmativo, parabéns!

Em caso negativo, é interessante observar que tanto textos verbais como textos não verbais precisam ser analisados com rigor e cautela. Em geral, uma única leitura é insuficiente para chegarmos a conclusões corretas, pois há detalhes que escapam ao nosso primeiro olhar e só passam a ser notados depois de uma exploração mais minuciosa do texto. Certamente você escolheu um dos copos e continuou analisando os demais para analisar se sua resposta estava correta, não é? A leitura requer movimentos de ida e vinda, de levantamento e checagem de hipóteses, de reconstrução de possibilidades etc. Sempre que estiver lendo um texto, não confie em sua primeira interpretação como a correta. Releia, repense, veja se faz sentido, discuta com alguém. Muitas vezes é nesse processo de reflexão e de incerteza que chegamos a conclusões mais acertadas.

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Leia e resolva o desafio a seguir. Obs.: desconhecemos a autoria da imagem.   Escolha sua resposta e leia nosso comentário abaixo: Copo 1 Isso dependeria de todos os outros estarem cheios, o que não vai acontecer, já que o copo 7 está furado. Copo 2 Nunca vai encher, porque vaza pelo furo do copo 7. […]

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27 Outubro 2017

Uma novidade no Enem 2017 é que a Justiça Federal suspendeu dia 25/10 aquela regra que prevê punição aos candidatos que desrespeitem os direitos humanos na redação da prova. Nos anos anteriores, ferir os direitos humanos era um dos motivos para o candidato zerar automaticamente na redação, de maneira que os outros aspectos nem eram avaliados.

O MEC ainda não foi informado oficialmente e o INEP está reforçando que vai continuar com a mesma avaliação, mas pode ser que agora você possa se posicionar contra os direitos humanos! Mesmo assim, NÃO DEVE.
Vou explicar por quê.

1. Na redação, o participante deve escrever sobre um tema de ordem social, científica, cultural ou política relevante para o momento presente no Brasil. Também é uma exigência que a redação apresente uma proposta de intervenção social para o problema apresentado. Se os argumentos não forem consistentes, estruturados com coerência e coesão, o participante também será lesado perdendo pontos. Como é muito difícil encontrar argumentos consistentes contra os direitos humanos, é bastante improvável que quem o faça consiga uma boa pontuação.

2. Os temas trazidos pelo ENEM são complexos, o que justifica sua relevância na prova. Não haveria motivo para fazerem uma proposta com tema simples, de solução fácil, que não careça de debate. Se um determinado problema está sendo apresentado para reflexão de milhares de estudantes, é por ser considerado um desafio para a sociedade. Sendo assim, qualquer sugestão radical ou “fácil” torna a argumentação INCONSISTENTE, o que acontece em ideias como jogar uma bomba no congresso; proibir todas as religiões do mundo; impor à população uma “ideologia única”; defender tortura ou execução sumária; defender “justiça com as próprias mãos”; aprovar violência motivada por questões de raça, etnia, gênero, credo, condição física, origem geográfica ou socioeconômica etc.

3. Um dos critérios de avaliação da redação é a compreensão da proposta e a aplicação de conceitos das várias áreas do conhecimento. Qualquer solução fácil ou radical está inevitavelmente se desviando do que preconizam profissionais e cientistas que estudam nossa sociedade partindo de diferentes pontos de vista. Ao propor uma solução para a situação apresentada, é preciso pensar em detalhes: quem vai executar, como, fazendo o que, de que modo, com que finalidade. Se esse detalhamento faz o candidato se sentir planejando um atentado terrorista, tem algo de errado aí (e ganhando ou não o ZERO dos direitos humanos, alguns dos critérios serão zerados com certeza). Claro: esse detalhamento também vale para assuntos que são responsabilidade governamental.

4. Existem 5 critérios de avaliação da redação do ENEM: dois deles são linguísticos e os demais são relacionados à capacidade de analisar, relacionar, selecionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista. Qualquer pessoa que apresente uma única visão, sobretudo se for brusca ou drástica, vai falhar nesses três e não vai atingir nem metade da nota possível.

5. Outra coisa que ainda garante nota zero para a redação é a fuga total ao tema. Por isso, se o candidato chega com ideias prontas para depreciar os direitos humanos, corre um risco ENORME de perder o foco. Tentar adivinhar o tema ou decorar frases feitas é FURADA. Quem quer ir bem precisa se dedicar com atenção à leitura da coletânea de textos apresentada na prova, mobilizar os conhecimentos que já tem sobre o assunto e tirar dali uma análise razoável, sensata, ponderada.

No fundo, acho que a decisão da Justiça Federal foi alardeada de modo exagerado e desnecessário pelos irresponsáveis que apoiam o Escola Sem Partido (projeto de nome excelente e com conteúdo enganoso, inconsistente e irresponsável).

A educação se baseia em pilares que incluem o direito à diversidade (étnica, religiosa, de gênero) e o direito à liberdade de expressão (O Brasil é signatário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, portanto a liberdade de expressão está condicionada ao respeito pelos direitos humanos). A orientação para a redação do Enem 2017 é que todos continuem respeitando essas ideias.

Para quem quiser mais detalhes, pode ler a Cartilha do participante do Enem 2017 ou se informar melhor sobre os direitos humanos.

Uma novidade no Enem 2017 é que a Justiça Federal suspendeu dia 25/10 aquela regra que prevê punição aos candidatos que desrespeitem os direitos humanos na redação da prova. Nos anos anteriores, ferir os direitos humanos era um dos motivos para o candidato zerar automaticamente na redação, de maneira que os outros aspectos nem eram […]

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