30 Janeiro 2019

Antes de falarmos do “fui ao mossar”, façamos um exercício.

Leia as palavras a seguir:
sékiço
cécso
séquisso
sécço
cékiço

Imagino que qualquer pessoa alfabetizada, mesmo com um pouco de dificuldade ou estranhamento, tenha reconhecido “sexo” em todas as ocorrências acima.

Isso acontece porque existem diversas POSSIBILIDADES sobre como escrever uma palavra, embora somente uma tenha sido ELEITA como correta. É isso que chamamos de CONVENÇÃO.
A convenção é um combinado, um acordo, um trato.

Se uma noiva decidiu que as madrinhas devem usar vestidos rosa (sem plural!) na cerimônia, isso é uma convenção. Não significa que um vestido verde seja inerentemente errado. Significa apenas que, naquele universo, por não ter sido eleito como a opção correta, ele não será visto com bons olhos.
Acontece o mesmo com a ortografia!

Não dá pra dizer que a ortografia seja totalmente aleatória, mas os critérios variam (há grafias que se justificam com base em etimologia, e outras que se justificam com base em critérios fonéticos, por exemplo). De todo modo, como não há um único critério, o que acaba valendo no final é conhecer a convenção, mesmo que a gente não saiba os porquês.
Por que escrevemos “casa” e não “kaza”?
Por que “excesso” e não “eceço”?
Por que “exigir” e não “ezijir”?
Por que “ficção” e não “fiquissão”?

(Aviso aos navegantes: se os olhos “doem” ao ler a palavra com a grafia diferentona, o único motivo é a falta de costume.)

O que eu quero dizer com tudo isso?

Sei que um dos meus papéis em uma sala de aula, mesmo que virtual, é ensinar as convenções.
Mas não podemos deixar de admitir que a escrita “fui ao mossar” é resultado de UMA SÉRIE DE HIPÓTESES CORRETAS.
O verbo IR de fato exige a preposição A: fui ao cartório, fui à biblioteca, fui ao restaurante.
“Mossar” e “moçar” têm sons idênticos.
Quem está pouco familiarizado com a escrita pode concluir que “fui ao jantar” e “fui ao mossar” são construções análogas.
Ou seja, a escrita inesperada tem seu charme e sua graça, mas não demonstra burrice nem ignorância, como se costuma imaginar. Pelo contrário: demonstra que o falante desconhece essa convenção específica, mas conhece várias regras/regularidades da língua. E demonstra também que a língua é cheia de possibilidades. A gente é que se acostumou a tratá-la como algo homogêneo, talvez pra simplificar.
Será?

Antes de falarmos do “fui ao mossar”, façamos um exercício. Leia as palavras a seguir: sékiço cécso séquisso sécço cékiço Imagino que qualquer pessoa alfabetizada, mesmo com um pouco de dificuldade ou estranhamento, tenha reconhecido “sexo” em todas as ocorrências acima. Isso acontece porque existem diversas POSSIBILIDADES sobre como escrever uma palavra, embora somente uma […]

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Nossa missão é combater o preconceito linguístico e dar dicas sobre o padrão da língua, que todos têm o direito de conhecer.



26 Junho 2018

Conhecem aquela história sobre a gente não saber se livrar da água suja da banheira do bebê sem jogar o bebê junto?

Quando tentamos escapar do gerúndio com medo de estarmos “cometendo” gerundismo, estamos fazendo exatamente isso: jogando fora o bebê.

O gerundismo foi vítima das fake news quando a gente nem sabia que isso existia. Espalharam por aí algumas grandes mentiras sobre ele, como a de que gerundismo significa excesso de gerúndio. Há vários textos na internet em que o autor comenta que gostaria de estar estudando mais, vivendo mais, ganhando mais, dormindo mais, e de repente interrompe as ideias para confessar a culpa: “quanto gerundismo!”.

Talvez esse medo de ser contaminado pela epidemia do gerundismo não existisse se tivessem explicado direitinho que gerundismo é outra coisa e que o gerúndio – pasmem – é benigno.

Vejam este diálogo:

— Posso te ligar hoje às 15h?

— Nesse horário vou estar fazendo prova. Pode ser às 16h?

 

“Vou estar fazendo” é o jeito informal de dizer “estarei fazendo”. Ambos são igualmente corretos, estruturas perfeitas (e canônicas) da língua portuguesa. Nesse caso, a pessoa deixou claro que no horário mencionado a ação de fazer prova estará em curso, portanto o uso do gerúndio está impecável!

O gerundismo acontece quando o atendente diz que “vai estar procurando” sua ficha, em vez de simplesmente dizer que vai procurar. É essa estrutura (verbo ir conjugado + verbo estar no infinitivo + verbo no gerúndio) que caracteriza o que vem sendo chamado de gerundismo, mas só em alguns contextos. Como observou o professor Sirio Possenti, o uso do gerúndio nesse caso cria a impressão de que aquela ação, que deveria ser pontual, vai se estender por algum tempo. Por isso é tão pouco indicado o uso do gerundismo no telemarketing: porque se cria a sensação de que o falante está fazendo corpo mole e arrastando a resolução do problema com uma preguiça enorme. Um “vou estar resolvendo” em vez de “vou resolver” parece indicar que a pessoa vai estar procrastinando e vai estar rastejando e vai estar empurrando a tarefa lá pra frente.

Claro que indicar uma ação duradoura no futuro pode ser uma das intenções do falante (“Vou perder o show amanhã porque ESTAREI DANDO AULA no mesmo horário”). Essa estrutura, portanto, é gramaticalmente correta, mas pode gerar um EFEITO DE SENTIDO indesejado dependendo do contexto em que é empregada.

Um cliente quer ser atendido com agilidade, e não “estar sendo atendido”. Quer que você envie logo os produtos, e não que “vá estar enviando”. Espera que você procure logo o registro das chamadas anteriores, e não que “vá estar procurando”. Ao ouvir que você “vai estar solucionando”, o cliente já deduz que a solução não será instantânea. Mas não há problemas dizermos frases como “Prefiro fazer a reunião esta semana porque VOU ESTAR VIAJANDO no próximo mês” (ou “estarei viajando”). Se nos parece possível dizer tanto “VOU FAZER um curso” como “FAREI um curso”, por que implicar com “vou estar fazendo um curso”? É claro que “farei” soa mais incisivo e mais formal que “vou fazer”, mas, repito, gramaticalmente, as duas construções são possíveis. O português, assim como outras línguas, tem duas formas de indicar o futuro. Vou comparar com o francês:

Forma analítica: Eu vou fazer | Je vais faire

Forma sintética: Eu farei | Je ferai

Para o professor Sirio Possenti, dizer que “vai estar fazendo”, mesmo que denote certa falta de compromisso, também expressa uma intenção de ser gentil e não grosseiro. Não parece mais delicado rejeitar um convite afirmando que “não vai poder estar aceitando”?

Ou seja: não é verdade que o gerundismo é errado, como não é verdade que ele é desnecessário. Se ele confere novas nuances de sentido ao que está sendo dito, ele tem uma função real.

Por fim, também não é verdade que gerundismo é excesso de gerúndio. Portanto, pode continuar sonhando, respirando, reclamando, estudando, enriquecendo, viajando, fazendo planos e vivendo tranquilamente com suas ações duradouras, que, linguisticamente, não há nada de errado com isso. Aliás, se houvesse, você deixaria de gerundiar? Eu, não.

 

Sugestão de leitura mais completa sobre o assunto: http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao04/04_006.php

Conhecem aquela história sobre a gente não saber se livrar da água suja da banheira do bebê sem jogar o bebê junto? Quando tentamos escapar do gerúndio com medo de estarmos “cometendo” gerundismo, estamos fazendo exatamente isso: jogando fora o bebê. O gerundismo foi vítima das fake news quando a gente nem sabia que isso […]

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Carol é mestre em Educação, especialista em Tradução e graduada em Letras (inglês e português). É coautora da coleção Circles pela editora FTD. Também trabalha com edição de livros didáticos de língua portuguesa.



19 Maio 2018

Cientistas políticos, psicanalistas, partidos aliados ou de oposição e outros grupos certamente têm suas maneiras de analisar o slogan escolhido pela equipe do presidente Michel Temer para comemorar os dois anos de governo. Vamos tentar, aqui, um viés linguístico, partindo do pressuposto de que o tropeço não foi intencional.

O primeiro aspecto digno de nota é o uso do verbo VOLTAR, que pode ter uma série de sentidos: retroceder (“Voltamos à estaca zero”), recomeçar (“Voltei a fumar”), recuperar uma posição de destaque (“O campeão voltou!”), entre outros.

O segundo é a frase “20 anos em 2”. Supondo que a ideia pretendida fosse de que “O Brasil está de volta” porque “avançou 20 anos em 2”, podemos considerar que a segunda frase seria uma explicação da primeira. Para alguns gramáticos, o ideal, nesse caso, não seria empregar uma vírgula, considerada um erro, mas dois pontos (:). Observe:

“O Brasil voltou: 20 anos em 2”

Talvez não evitasse as piadas dos opositores que acham que a frase faz mais sentido sem pontuação, mas amenizaria o efeito de estranhamento.

Há também os gramáticos para os quais a vírgula é aceitável, pois ajudaria a intercalar dois trechos justapostos. Como todos notaram, no entanto, a pontuação foi insuficiente para criar o efeito esperado. Por quê?

Primeiramente porque, sendo sucedido por uma expressão de medida temporal, o verbo “voltar” imediatamente cria a ideia de retorno a um tempo anterior. Portanto, mesmo havendo numerosas possibilidades de sentido para “voltar”, a sugestão de retorno a um período precedente que é criada pela continuação do slogan não deixa ao leitor muita escolha senão entender o verbo como indício de um retrocesso. Talvez uma alteração do pretérito para o presente (“O Brasil está de volta!”) ajudasse a amenizar o efeito.

Há, também, um fator extralinguístico a ser considerado. Aparentemente a intenção era adaptar o bordão de Juscelino Kubitschek (“Brasil, 50 anos em cinco”). O novo slogan, porém, toca em uma ideia que permeia o imaginário popular de parte dos brasileiros, aqueles que se opõem ao governo: a de que as medidas tomadas atualmente anulam avanços conquistados nas últimas décadas.

Por fim, vi que alguns leitores, ao se depararem com a frase “O Brasil voltou”, perguntaram a si mesmos: “voltou de onde?”.

Considero, portanto, que o slogan tem três grandes problemas: 1) escolha inadequada de vocábulo; 2) pontuação frágil; 3) desatenção (ou desdém) em relação a ideias que estão em embate na nossa sociedade.

Parece que o governo tem agora um novo mote: “Maio de 2016 – Maio de 2018 – O Brasil Voltou”. Melhorou para vocês?

Cientistas políticos, psicanalistas, partidos aliados ou de oposição e outros grupos certamente têm suas maneiras de analisar o slogan escolhido pela equipe do presidente Michel Temer para comemorar os dois anos de governo. Vamos tentar, aqui, um viés linguístico, partindo do pressuposto de que o tropeço não foi intencional. O primeiro aspecto digno de nota […]

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Carol é mestre em Educação, especialista em Tradução e graduada em Letras (inglês e português). É coautora da coleção Circles pela editora FTD. Também trabalha com edição de livros didáticos de língua portuguesa.



11 Agosto 2017

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Acabo de ver por acaso o trailer do filme “Cegonhas – A história que não te contaram” e fiquei pensando sobre o incômodo que esta cena causaria em algumas pessoas. Afinal de contas, “surpresa inesperada” não é redundância?

Se uma surpresa é, por definição, algo que causa admiração, espanto e quebra de expectativa, somos levados a pensar que o fato de não ser esperada está implícito. Portanto, “surpresa inesperada” seria, sim, um pleonasmo.

Os pleonasmos (ou redundâncias) consistem na repetição de ideias. “Subir pra cima” e “descer pra baixo” são alguns dos exemplos mais comuns, mas também podemos citar “certeza absoluta”, “maluco da cabeça”, “amanhecer o dia”, “olhar com os olhos”, “conclusão final” etc. No entanto, embora muita gente considere essas ocorrências vícios de linguagem abomináveis, elas podem ser usadas de modo deliberado pra indicar ênfase. Trata-se de uma escolha estilística! Quando se diz “surpresa inesperada”, a intenção é que o ouvinte ou leitor saiba o quanto aquilo causou espanto!

Aliás, também é possível pensarmos que existem, sim, surpresas esperadas. Por exemplo: alguém pode ter a expectativa de receber uma festa surpresa, ou de receber um presente surpresa, ou um pedido de casamento etc. Como sabemos que fazer surpresa é algo comum em nossa sociedade, é comum que muitas pessoas esperem por elas ou as desejem. Por isso, frisar que se tratou de uma surpresa que foi de fato inesperada não é nenhum absurdo.

Além disso, o fato de alguma expressão se encaixar da definição de “redundância” não significa que seja preciso evita-la sempre. Pode-se maneja-la de maneira a construir algum sentido desejado. Outro exemplo: se eu penso a respeito de algum problema e vou chegando a diferentes conclusões ao longo do processo, é bastante coerente falar em “conclusão final”, concordam?

Nem tudo é regra no campo da língua!  🙂

#portugueselegal

  Acabo de ver por acaso o trailer do filme “Cegonhas – A história que não te contaram” e fiquei pensando sobre o incômodo que esta cena causaria em algumas pessoas. Afinal de contas, “surpresa inesperada” não é redundância? Se uma surpresa é, por definição, algo que causa admiração, espanto e quebra de expectativa, somos […]

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