Português é legal




27 Outubro 2017

Uma novidade no Enem 2017 é que a Justiça Federal suspendeu dia 25/10 aquela regra que prevê punição aos candidatos que desrespeitem os direitos humanos na redação da prova. Nos anos anteriores, ferir os direitos humanos era um dos motivos para o candidato zerar automaticamente na redação, de maneira que os outros aspectos nem eram avaliados.

O MEC ainda não foi informado oficialmente e o INEP está reforçando que vai continuar com a mesma avaliação, mas pode ser que agora você possa se posicionar contra os direitos humanos! Mesmo assim, NÃO DEVE.
Vou explicar por quê.

1. Na redação, o participante deve escrever sobre um tema de ordem social, científica, cultural ou política relevante para o momento presente no Brasil. Também é uma exigência que a redação apresente uma proposta de intervenção social para o problema apresentado. Se os argumentos não forem consistentes, estruturados com coerência e coesão, o participante também será lesado perdendo pontos. Como é muito difícil encontrar argumentos consistentes contra os direitos humanos, é bastante improvável que quem o faça consiga uma boa pontuação.

2. Os temas trazidos pelo ENEM são complexos, o que justifica sua relevância na prova. Não haveria motivo para fazerem uma proposta com tema simples, de solução fácil, que não careça de debate. Se um determinado problema está sendo apresentado para reflexão de milhares de estudantes, é por ser considerado um desafio para a sociedade. Sendo assim, qualquer sugestão radical ou “fácil” torna a argumentação INCONSISTENTE, o que acontece em ideias como jogar uma bomba no congresso; proibir todas as religiões do mundo; impor à população uma “ideologia única”; defender tortura ou execução sumária; defender “justiça com as próprias mãos”; aprovar violência motivada por questões de raça, etnia, gênero, credo, condição física, origem geográfica ou socioeconômica etc.

3. Um dos critérios de avaliação da redação é a compreensão da proposta e a aplicação de conceitos das várias áreas do conhecimento. Qualquer solução fácil ou radical está inevitavelmente se desviando do que preconizam profissionais e cientistas que estudam nossa sociedade partindo de diferentes pontos de vista. Ao propor uma solução para a situação apresentada, é preciso pensar em detalhes: quem vai executar, como, fazendo o que, de que modo, com que finalidade. Se esse detalhamento faz o candidato se sentir planejando um atentado terrorista, tem algo de errado aí (e ganhando ou não o ZERO dos direitos humanos, alguns dos critérios serão zerados com certeza). Claro: esse detalhamento também vale para assuntos que são responsabilidade governamental.

4. Existem 5 critérios de avaliação da redação do ENEM: dois deles são linguísticos e os demais são relacionados à capacidade de analisar, relacionar, selecionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista. Qualquer pessoa que apresente uma única visão, sobretudo se for brusca ou drástica, vai falhar nesses três e não vai atingir nem metade da nota possível.

5. Outra coisa que ainda garante nota zero para a redação é a fuga total ao tema. Por isso, se o candidato chega com ideias prontas para depreciar os direitos humanos, corre um risco ENORME de perder o foco. Tentar adivinhar o tema ou decorar frases feitas é FURADA. Quem quer ir bem precisa se dedicar com atenção à leitura da coletânea de textos apresentada na prova, mobilizar os conhecimentos que já tem sobre o assunto e tirar dali uma análise razoável, sensata, ponderada.

No fundo, acho que a decisão da Justiça Federal foi alardeada de modo exagerado e desnecessário pelos irresponsáveis que apoiam o Escola Sem Partido (projeto de nome excelente e com conteúdo enganoso, inconsistente e irresponsável).

A educação se baseia em pilares que incluem o direito à diversidade (étnica, religiosa, de gênero) e o direito à liberdade de expressão (O Brasil é signatário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, portanto a liberdade de expressão está condicionada ao respeito pelos direitos humanos). A orientação para a redação do Enem 2017 é que todos continuem respeitando essas ideias.

Para quem quiser mais detalhes, pode ler a Cartilha do participante do Enem 2017 ou se informar melhor sobre os direitos humanos.

Uma novidade no Enem 2017 é que a Justiça Federal suspendeu dia 25/10 aquela regra que prevê punição aos candidatos que desrespeitem os direitos humanos na redação da prova. Nos anos anteriores, ferir os direitos humanos era um dos motivos para o candidato zerar automaticamente na redação, de maneira que os outros aspectos nem eram […]

Leia mais

escrito por

Nossa missão é combater o preconceito linguístico e dar dicas sobre o padrão da língua, que todos têm o direito de conhecer.



21 Outubro 2015

Talvez esteja muito em cima da hora pra vir dar dicas pra redação do ENEM, mas… eu vim mesmo assim. Vamos lá:

1. Datenas do meu Brasil, evitem se deixar contaminar por um tom sensacionalista.
“Não se pode mais sair de casa no Brasil sem levar um tiro de bala perdida!”. O que dizer, então, sobre todas as pessoas (a maioria) que voltam vivinhas da Silva todos os dias? Propostas de redação com temas polêmicos ajudam a mostrar que temos fortes candidatos pra substituir o Datena. O que se espera na redação não é que você coloque pra fora sua revolta e indignação com algum problema social do Brasil, mas que olhe pra esse problema e faça uma análise de modo sensato, ponderado e embasado. Afirmar que “Há cidades do Brasil em que a alta taxa de assaltos chama a atenção de especialistas” é bem diferente de dizer que “Basta uma pessoa pisar na rua que já é assaltada!”. A segunda frase é falsa e você não vai ganhar pontos na nota por ter “causado impacto”. Vai sugerir que não tem compromisso com a verdade, ou seja, vai causar má impressão.

2. Não generalize.
O problema com as generalizações é que elas são falsas, o que significa que você corre o risco de colocar informações erradas no texto e perder credibilidade. Por exemplo: por mais evidências que haja sobre a corrupção na política brasileira, não sabemos a porcentagem de políticos honestos. “Nenhum, ué!!!”, meus alunos me responderam quando fiz esse comentário. E se houver uma cidadezinha lá no interior daquele estado que a gente mal lembra que existe em que os políticos estejam de fato comprometidos com um trabalho íntegro, em prol da população? Quando deixamos de generalizar, mostramos que estamos cientes da limitação de nosso conhecimento. ADMITIR QUE NÃO SABEMOS É SINAL DE BOM SENSO. Não posso acusar de corrupção todos os políticos porque não há dados concretos que embasem essa afirmação. Não sejamos Datenas na redação (nem na vida). Mas você acredita do fundo do coração que isso é verdadeiro… como faz? A salvação é MODALIZAR. Algumas sugestões sobre como sair dessa:

● Muitos acreditam que toda a política brasileira está contaminada por corrupção.
● Há uma crença generalizada de que políticos honestos são minoria no cenário brasileiro.
● Em geral, os políticos brasileiros são considerados corruptos

3. Cuidado com saudosismos.
É muito comum ouvirmos pessoas mais velhas dizerem “no meu tempo é que as coisas eram boas”, “no meu tempo a escola era de qualidade”, “no meu tempo os políticos eram bons pra população”. Quando, cara-pálida, na ditadura? Mesmo quando se tem a impressão de que algo mudou na sociedade, fazer afirmações VAGAS pode ser uma área de risco. Como saber se a escola era melhor? Como medir a qualidade da formação dos professores antigamente e agora? O que significa “melhor”? Havia menos alunos por sala? Todos estavam matriculados? Os professores passavam por programas de formação mais extensos? A menos que saibamos uma resposta concreta para essas perguntas, com base no resultado de pesquisas sérias, é melhor não afirmarmos nada de modo categórico. Ok, mas e se você tem necessidade moral-fisiológica-urgente-caso-de-vida-ou-morte de fazer menção ao que você acha que é real? Proteja-se do erro com essas sugestões:

● Muitos (e não todos!) brasileiros têm a impressão (e não certeza!) de que a qualidade do ensino público já foi melhor no passado.
● Em geral, é comum que se acredite que a qualidade do ensino público piorou no Brasil, embora muitos aspectos relacionados à educação sejam difíceis de mensurar.

4. O avaliador não é teu bróder.
Um dos aspectos avaliados na sua redação é o uso da língua portuguesa. Isso significa tanto escrever de maneira clara, respeitando a ortografia das palavras e construindo frases cuja estrutura seja comum na nossa língua, quanto respeitar a formalidade que um texto dissertativo demanda. Meu conselho é: releia seu texto quando terminar de escrever, circule o que estiver informal demais (ou estranho demais) e procure outros modos de dizer a mesma coisa. Reler o texto é fundamental! Não ter preguiça de fazer substituições apressadas do que não estiver bom é imprescindível. Evitem ser muito informais na redação (na vida pode). Um exemplo?

● Em vez de dizer que a população “se deu mal”, diga que foi afetada negativamente, ou que o plano não foi bem-sucedido, ou que os resultados não foram favoráveis à população.

5. Não sois Camões, porém.
O tópico anterior me preocupa: quando pedimos aos alunos que evitem construções ou expressões muito coloquiais, eles tendem a ir pro extremo oposto e sair escrevendo feito Camões. Uma coisa importante para se ter em mente é que, fosse Camões vivo em 2015, nem ele escreveria como Camões. O objetivo da redação é que você seja claro e objetivo, sem rodeios, sem apego a erudições. Não se trata de um concurso de poesia, mas de uma oportunidade para você mostrar para as pessoas que vão ler seu texto que: você sabe usar a variedade-padrão do português mais ou menos bem, você sabe expor suas ideias mais ou menos bem, você consegue dissertar sobre uma questão complexa da nossa sociedade mais ou menos bem e você é capaz de oferecer uma sugestão mais ou menos boa pra ela. Far-se-á necessário que me valha de mesóclises? CLARO QUE NÃO!  😉

6. É preciso que o governo resolva essa situação urgentemente!
Bem, também é preciso que caia mais dinheiro na minha conta, mas nem por isso o saldo tem aumentado… Não adianta fazer um pedido indignado, apaixonado, #chateado e não apresentar ARGUMENTOS. Como vocês sabem, o último parágrafo do Enem requer que o candidato ofereça uma proposta de solução para o problema discutido, mas não é qualquer solução. Primeiro: tem que ser uma solução VIÁVEL. Não adianta, então, propor que todos os professores do Brasil passem um ano se atualizando longe das salas de aula e só voltem a lecionar no ano seguinte. Segundo: tem que ser uma solução que respeite os DIREITOS HUMANOS. Se você é do time que acha que jogar uma bomba em Brasília resolve nossos problemas, por gentileza, não conte isso ao avaliador. Terceiro: tem que ser uma solução CONCRETA. Em vez de dizer que “É preciso que o governo melhore a educação”, você pode sugerir:

● É necessário que haja investimentos na formação de professores e na composição de equipes escolares, de modo que os estudantes possam encontrar um ensino efetivo na rede pública de educação.

Essas dicas foram escritas com base em alguns dos erros mais comuns que os alunos costumam cometer ao escrever. Pra quem vai fazer a prova, não se esqueça:
● Sua redação deve ter entre 7 e 30 linhas. Com menos de 7, você tira zero;
● Você deve se restringir ao assunto proposto. Fuga ao tema significa nota zero;
● Não copie trechos dos textos de apoio! Aquela coletânea serve pra ajudar a situar os candidatos, caso não saibam muito sobre aquele assunto. É uma ÓTIMA maneira de garantir que todos tenham pelo menos uma quantidade mínima de informações. Copiar trechos daquilo corresponde a gastar linhas em vão (e a nota é zero);
● Não escreva uma carta, um manifesto, um poema, nada disso: escreva um texto dissertativo-argumentativo;
● O título é opcional.

Se tiverem alguma dúvida específica, podemos responder até sábado!

Boa prova a todos!

 

11898591_932313723481019_5221267601530721269_n

Talvez esteja muito em cima da hora pra vir dar dicas pra redação do ENEM, mas… eu vim mesmo assim. Vamos lá: 1. Datenas do meu Brasil, evitem se deixar contaminar por um tom sensacionalista. “Não se pode mais sair de casa no Brasil sem levar um tiro de bala perdida!”. O que dizer, então, […]

Leia mais

escrito por

Nossa missão é combater o preconceito linguístico e dar dicas sobre o padrão da língua, que todos têm o direito de conhecer.



30 Janeiro 2015

Uma das principais reclamações entre quem se recusa a ler grandes nomes da literatura brasileira é a suposta dificuldade para compreender o vocabulário dos livros. Por isso, resolvemos escrever um post curtinho e divertidinho e mostrar que não há motivos pra se assustar ao se deparar com uma palavra desconhecida. Em alguns contextos, mesmo que a palavra não estivesse lá, poderíamos entender todo o texto. Duvida? Observe a estratégia usada no anúncio publicitário a seguir:

submarino-portugues-legal-carol

 

O contexto bastou para que você completasse as primeiras frases sem dificuldade, não foi?
O mesmo acontece com qualquer trecho do Machado de Assis. Você sabe o que é uma alcova? Será de comer? De vestir? Dá pra comprar? É um nome pejorativo?
Vejam estes dois períodos de Dom Casmurro, por exemplo:

“Pádua enxugou os olhos e foi para casa, onde viveu prostrado alguns dias, mudo, fechado na alcova.”
“Fizeram-me entrar na alcova, onde ele jazia estirado na cama, mal coberto por uma colcha de retalhos.”

 

Lendo a primeira frase, a gente já saberia que se trata de um lugar. Com a segunda, sabendo que a alcova é o lugar onde encontramos a cama, fica fácil! Segundo o dicionário, era esse o nome de pequenos quartos de casas antigas.

Vejamos, agora, dois trechos do livro Quincas Borba:

“Freitas elogiava tudo, saudava cada prato e cada vinho com uma frase particular, delicada, e saía de lá com as algibeiras cheias de charutos.”
“Levantou-se, meteu as mãos nas algibeiras das calças e, depois de alguns passos, parou defronte de Sofia.”

 

Antes de ficar nervoso com a palavra desconhecida, tente imaginar aquele espaço em branco. Onde seria possível guardar charutos? Em uma bolsa? Um estojo? Olhando a segunda frase, fica fácil: se algibeira é um compartimento da calça onde é possível enfiar as mãos, só pode ser o bolso.

Essa tática vale também pra quem está aprendendo um idioma novo: em alguns contextos, somente determinadas palavras caberiam. A dica é reler a frase imaginando quais palavras fariam sentido lá. Costuma funcionar!

Se você tem outras dificuldades (birras, repulsas, fobias) ao ler, conte pra gente quais são e tentaremos ajudar! Fugir de autores SUPERLEGAIS como Machado de Assis por não entender algumas palavras é como deixar de ir à praia porque vai se sujar de areia.

Até a próxima!  😉

[Para ser notificado sobre novos textos, deixe seu e-mail nos comentários]

283x91@2x

Uma das principais reclamações entre quem se recusa a ler grandes nomes da literatura brasileira é a suposta dificuldade para compreender o vocabulário dos livros. Por isso, resolvemos escrever um post curtinho e divertidinho e mostrar que não há motivos pra se assustar ao se deparar com uma palavra desconhecida. Em alguns contextos, mesmo que […]

Leia mais

escrito por

Nossa missão é combater o preconceito linguístico e dar dicas sobre o padrão da língua, que todos têm o direito de conhecer.



9 Dezembro 2013

Neste vídeo, explicamos um pouco sobre as ideias que nos guiam na execução deste projeto.

Bem-vindos!

twitter2

Neste vídeo, explicamos um pouco sobre as ideias que nos guiam na execução deste projeto. Bem-vindos!

Leia mais

escrito por

Nossa missão é combater o preconceito linguístico e dar dicas sobre o padrão da língua, que todos têm o direito de conhecer.