3 Dezembro 2017

Qual é o sentido da vida, do universo e tudo mais? E, afinal, quem sou eu? Bom, respondendo à primeira pergunta, 42. Já a segunda, essa é um pouco mais difícil, embora seja simples. (Mas como assim?) Assim: você é você, ou seja, você é quem todas as outras pessoas não são.

Uma questão muito complexa é a da tentativa de definir a identidade das pessoas. Por isso, aqui, não é pretendido que se disseque completamente esse conceito, nem os seus similares: personalidade, caráter e ego. Tão-somente se definirá a identidade para fins explicativos, a saber: a identidade é a soma das características naturais com as experiências pelas quais o indivíduo passa durante a vida. Isto é, cada pessoa tem uma identidade própria, uma vez que seu código genético é único e, portanto, suas características naturais são únicas também. Mas então como explicar as identidades ou personalidades dos irmãos-gêmeos, que possuem o mesmo DNA? Aí tomamos a segunda perspectiva: o meio ambiente, as pessoas com as quais convivem, a forma como eles lidam com as coisas que acontecem, em outras palavras, suas experiências pessoais. Em se tratando de Arte – especificamente a Literatura –, é possível entender essa identidade (ou personalidade, de persona) como a biografia do artista, ou autor. Assim, entendemos que a pessoa do autor, formada por traços inatos e por outros – construídos através da vivência – é única e não pode ser transferida a ninguém.

Quando lemos um texto literário, algumas pessoas se destacam entre as palavras; como as personagens: protagonistas, antagonistas e coadjuvantes, e o narrador: a voz que conta a história e que pode ou não ser uma personagem dela. Interessante é perceber que essas pessoas, invariavelmente, são fictícias! Até mesmo em romances históricos, os quais narram acontecimentos reais, as personagens representadas não são definitivamente reais (embora sejam bastante verossímeis, isto é, próximas da realidade). O que ocorre é que, no ato da escrita, o autor é responsável por definir o que chamamos de pacto de leitura: a criação de um mundo diferente do que existe, o qual possui regras próprias e é povoado por seres próprios. O leitor, do seu lado, aceita as verdades contidas na história como reflexos da mente criativa e criadora do autor, não as confundindo com a chamada realidade. Desta forma, ainda que a história seja baseada em eventos e pessoas reais, jamais, em hipótese alguma, podemos considerá-la verdadeira.

A ficção tem, sim, laços com a realidade, como a já citada verossimilhança, que se define como a lógica da narrativa ou coerência; contudo, é de suma importância que saibamos separar a literatura e o mundo real. Então, compreendendo que o narrador é uma pessoa (fictícia) e que o autor também é uma pessoa (física), onde encaixamos a tal identidade? Simples: em ambos. Mas isso desde que os distingamos entre si, já que eles não dividem o mesmo mundo, portanto, não podem ter tido as mesmas experiências. Em outras palavras, é impossível que o narrador e o autor sejam a mesma pessoa, com a mesma identidade e personalidade, embora – novamente – pode ser que eles dividam alguns traços em comum, assim como os próprios mundos fictício e real dividem.

É notável, pois, o fato de que as variações que uma pessoa física sofre em sua identidade, durante a existência, são poucas se comparadas às dos narradores. Se definirmos a identidade como já fizemos, o indivíduo vai se modificar ou se consolidar a partir das experiências que tem, enquanto o narrador, por outro lado, não depende dessas experiências para ser criado ou transformado; ele depende única e exclusivamente da imaginação do autor. Um escritor, assim, terá sua identidade construída através da vida, podendo, durante essa construção, criar inúmeras outras pessoas muito mais diferentes entre si do que ele próprio e seus eus passados.

Essa distinção, ou diferenciação, entre as pessoas surgidas de uma única pessoa colabora, portanto, para a certeza de não se poder fundir – e confundir – o autor e o narrador (por extensão, narradores). Desta forma, fica mais fácil olhar para o texto e não enxergar o autor, pelo menos não completamente.

Na poesia, por outro lado, não existe – via de regra – algo que possamos chamar de narrador, uma vez que os poemas tendem a não narrar histórias, mas sim construir imagens simbólicas com as quais o leitor possa vir a se “encantar”, isto é, identificar-se e se emocionar, bem como permitir que a poesia floresça em seu interior. Para tanto, o autor se vestirá novamente de outra pessoa; dessa vez, não um narrador, mas uma voz mais ligada aos sentimentos e à força da palavra: o eu-lírico.

Porquanto o escritor é capaz de criar diversos narradores para suas diferentes histórias, o poeta deve fazê-lo muito mais vezes – com os eus-líricos –, tendo em vista a extensão menor dos textos desse gênero. Em outras palavras, no tempo em que um escritor de prosa gera uma dúzia de trabalhos, um poeta é capaz de produzir centenas de textos. Somando-se a isso o fato de a poesia ser, por definição, voltada para as emoções humanas, temos, então, a facilidade em confundir o poeta com o seu eu-lírico. Afinal, deve ser muito difícil, para o autor, desenvolver vozes diferentes da sua a fim de falar sobre sentimentos humanos, ainda mais em um grande número de textos, não é mesmo? Imagine o esforço investido na escrita de um poema que fala sobre a morte da pessoa amada; e se a pessoa amada do autor não morreu; e se o autor nem sequer ama alguém; e se o autor nunca perdeu ninguém querido… Como ser honesto e sincero no poema, visando conectar-se com o leitor, falando sobre o que desconhecemos? Difícil, mas simples: evocamos uma pessoa que saiba daquele assunto. Uma pessoa fictícia, mas intimamente ligada às coisas do mundo real. Uma pessoa imaginária, mas que sente e sofre e ama e morre.

De forma criativa, porém partindo de traços humanos os quais podem ser facilmente reconhecidos no mundo real, o poeta desenvolve seu eu-lírico quase organicamente, porque é da própria natureza de sua atividade; um movimento, na maioria das vezes, pouco consciente e até automático. Quando se escolhe o tema do poema (ou quando a musa aparece), o autor, ainda que não sinta efetivamente aquilo sobre o que escreve, naquele momento, sabe o que deveria sentir – porque é humano, porque sente, sofre, ama, etc. Dessa forma, o eu-lírico, ao tratar de assuntos sobre os quais o poeta tem pouco conhecimento, não está mentindo ou fingindo para o leitor; principalmente porque, de novo, eles não são a mesma pessoa nem têm a obrigação de dividir os mesmos sentimentos. A voz lírica sente porque o poeta sabe o que deveria sentir. É estranho, mas não paradoxal, já que a emoção e a razão não são opostas.

Agora, se a pessoa física é diferente da pessoa literária (do narrador ou do eu-lírico), se uma é o Outro da outra, como é possível conhecer tão bem os poetas a partir, somente, das suas obras…? Bom, não é. O que pode vir a acontecer é o fenômeno que humildemente batizo de “lirismo translúcido”, o qual acaba sendo bem simples, apesar do nome aparentemente rebuscado. Se concordarmos que a voz que fala na poesia não é a voz do autor, mas de uma pessoa criada, e que as duas pessoas são diferentes, o poeta pode – por querer ou sem querer – deixar sua identidade aparecer naquilo que o Outro diz. Isto é, o eu-lírico revela a personalidade do seu criador.

É muito importante ressaltar, contudo, que essa poesia não deve sobrepujar a ideia das diferentes pessoas na literatura. Assim, ainda que seja possível reconhecer a identidade de um poeta (quer dizer, identificá-lo), não devemos esquecer que, no poema, quem nos fala é o eu-lírico. Eles podem ser mais ou menos parecidos, mas, ainda assim, tratam-se de duas pessoas de mundos diferentes e com personalidades distintas.

Quando um autor “aparece” no texto, portanto, ele está utilizando seus próprios conhecimentos e sentimentos através do eu-lírico. Apesar de continuar não sendo o poeta quem fala no poema, ele pode transmitir suas emoções para que o eu-lírico seja capaz de escrever sobre estas; da mesma forma como o eu-lírico pode escrever sobre emoções que o poeta desconhece. Assim, é importante compreender que, mesmo no poema mais íntimo e autobiográfico, o autor não está falando. Dessa forma, quando tentarmos interpretar um texto, vê-lo-emos enquanto objeto fechado e completo em si: com uma voz que diz e com algo que é dito; sem a necessidade de levar em conta autor, cidade onde viveu, casamentos, filhos, situação política etc. Mas isso sem deixar totalmente de lado o lirismo translúcido, o qual compreende a existência da identidade do poeta – mais ou menos explicitada. Configura um erro de leitura, portanto, julgar-se conhecedor íntimo de um autor tão-somente pelo conhecimento que se tem de sua obra.

Não é raro acontecer de partirem do leitor alguns pré-conceitos sobre o poeta, os quais refletem o que se espera da pessoa física a partir do que se conhece da pessoa literária. Por vezes, esses conceitos são supostamente positivos, mas também podem ser negativos, isto é, julgamos e definimos algumas qualidades encontradas no eu-lírico como parte do poeta. O que acontece, pois, é a inevitável desilusão: o poeta é uma pessoa comum, com falhas e acertos – diferentemente do eu-lírico, criado a partir da imaginação, que pode apresentar apenas qualidades positivas (por que não?). Assim, o leitor acaba cobrando, do autor, algumas características que são intrínsecas à sua criação e as quais podem nem existir – com efeito – na pessoa autora, na pessoa real.

 

*Léo é escritor, poeta e professor de escrita criativa.

Qual é o sentido da vida, do universo e tudo mais? E, afinal, quem sou eu? Bom, respondendo à primeira pergunta, 42. Já a segunda, essa é um pouco mais difícil, embora seja simples. (Mas como assim?) Assim: você é você, ou seja, você é quem todas as outras pessoas não são. Uma questão muito […]

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24 Outubro 2017

Para quem se interessa por literatura infantil, pergunto:

Você conhece o Mindinho? Aquele dedo miúdo que mora ao lado do seu vizinho? É do pequeno este livro, do seu olhar, do seu mundo, que página a página se abre, sonhando criar infinitos. Aqui seu Mindinho é gigante, o maior de todos os dedos, e tenta falar do minúsculo que pode virar coisa grande, tão grande quanto ele se sabe: Mindinho se mede importante! Foi desse grãozinho ao imenso que veio logo o poema, aquele carregado de ideias capaz de ampliar qualquer tema. Quer conhecer esse mundo, o mundo desse Mindinho, o Mindinho maior de todos? Abra este livro, pegue sua lupa ​ e… Boa viagem!

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Para conhecer um dos poemas, assista:

Para quem se interessa por literatura infantil, pergunto: Você conhece o Mindinho? Aquele dedo miúdo que mora ao lado do seu vizinho? É do pequeno este livro, do seu olhar, do seu mundo, que página a página se abre, sonhando criar infinitos. Aqui seu Mindinho é gigante, o maior de todos os dedos, e tenta […]

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Nossa missão é combater o preconceito linguístico e dar dicas sobre o padrão da língua, que todos têm o direito de conhecer.



24 Agosto 2017

 

Entrevista do escritor Christian Bobin para a revista francesa Nouvelles Clés em março de 2004.

 Tradução de Lúcia Leal Ferreira

Um permanente apaixonado, mas que soube integrar ao seu júbilo e às suas febres a lentidão, a paciência, o silêncio e até o vazio. Um homem que sabe nos fazer sentir a plenitude luminosa daquilo que poderia parecer ausências cinzentas, mas com tanta sutiliza que trememos ainda por muito tempo depois de tê-lo lido. Durante anos, seus livros foram publicados por pequenas editoras (Branda, Paroles d’Aube, Le Temps qu’il fait, Théodore Balmoral, ou ainda, e sobretudo, Fata Morgana). E eis que em 1992, a grande Gallimard (que devia estar de olho nele há muito tempo) publica seu magnífico retrato de Francisco de Assis (ele não diz “Santo”, a maiúscula lhe parece excessiva). Le très bas é uma obra-prima. Christian Bobin começou a fazer muito sucesso, mas isso não o estragou.

 

Nouvelles Clés: De onde vem tanta calma?

Christian Bobin: Deve vir de muito longe. Da infância. Os livros vêm de lá, na minha opinião. A tagarelice dos livros vem de um estado de mudez da infância. Bem antes de saber ler e escrever, acontecem coisas. Ou coisas não acontecem. Tenho a sorte de vir de uma família calma, tranqüila. Sempre me senti amado. E depois, sou do Creusot, e lá não há acontecimentos.

 

N.C.: Você continua vivendo lá e se sente visivelmente confortável…

C.B.: Talvez um fio nunca se tenha rompido, na base. Em casa, o sentimento que dominava, a nota que dava o tom, e que continua sendo a minha hoje, era um sentimento estranhamente feliz de que nada acontece, apesar de estarmos sempre esperando que algo aconteça. Parece contraditório, mas, ao contrário, são coisas que combinam muito bem. Não tenho praticamente nenhuma lembrança da infância. Não me imagino, um dia, escrevendo minhas memórias. Elas caberiam, no máximo, em duas ou três páginas! Sobre minha infância, reina um sentimento de brancura. Uma luz se esparrama, numa cidade firmemente controlada por uma sólida indústria, onde tudo parecia durar para a eternidade. Entretanto, já na época de meu nascimento, em 1951, aquele mundo estava desmoronando. Mas a nota básica, esse sentimento misturado de indiferença e de espera em relação ao mundo, eu o conservei. Muitas coisas passam por mim sem deixar rastro. Eu as vejo, tomo conhecimento delas, mas elas escorregam… Não se trata de jeito nenhum de desprezo, de ignorância. Eu leio os jornais, desde a seção de esportes até a de política. Tento saber o mais possível. Mas essas coisas me atravessam. Claro, há às vezes momentos mais “despertos” — maio de 68 ou a queda do muro de Berlim. Mas esses são momentos coletivos, difíceis de pensar. Não tenho a cabeça politicamente organizada, e o mínimo que se pode dizer é que tenho bem pouco apreço pelo que é coletivo. Por exemplo, nunca tive medo de não ser publicado. A perspectiva de que recusassem tudo que eu escrevesse me deixava totalmente indiferente. Estava pouco ligando, mesmo. E compreendi pouco a pouco que esse estado não era necessariamente o mesmo de todos os que escrevem. Para mim, foi assim desde que, adolescente, comecei a escrever meus primeiros poemas.

 

N.C.: Ao lê-lo, temos a impressão de que, para você, o essencial está nos detalhes…

C.B.: Isso combina com o resto, com esse outro sistema mental — a palavra sistema não é a melhor, mas para ir mais rápido vou usá-la mesmo assim —, essa mistura de apatia e de afastamento, que permite uma acuidade formidável sobre o que se passa. No fundo, é só isso, mesmo. O que quer dizer que me sinto, na sociedade, como o garoto no pátio do recreio que não participa das brincadeiras com os outros. Não é que ele seja rejeitado. Não é que despreze os outros — teria antes um sentimento de admiração por eles. Mas sempre dava um passo para o lado… Todas as crianças estão ali, no pátio, elas pulam, elas gritam, elas brincam. E está tudo bem. Mas há uma que se afasta, fica sentada num canto, olhando. Ele tem uma fabulosa vista do que está acontecendo. Pois bem, para mim, essa situação nunca teve fim. Continuo lá, sentado no pátio do recreio…

 

N.C.: Mas, apesar de ter continuando sentado no pátio do recreio, você estudou, não?

C.B.: Sim, filosofia. Mas lá também, fiquei olhando as coisas passarem. Tenho que confessar que tive uma paixão por Platão. E por Kierkegaard, que eu amava muito. Não por acaso: é uma das figuras mais selvagens da história da filosofia. Foi praticamente o único da época que ousou, com um pensamento firme, coerente, resistir à grande moda hegeliana — resistir a Hegel, que já trazia o bebê Marx em seu ventre! Em nome de quê, ele resistia? Em nome do individual, do singular, contra o pensamento globalizante, generalizante e, em germe, totalizante, totalitário! Mas talvez nada tenha de fato mudado desde Kierkegaard. Há sempre regras, e não respeitá-las custa caro. No mínimo: o preço da solidão. Felizmente, no meu caso, tenho boas raízes. Foi também por isso que tive vontade de escrever sobre Francisco de Assis. Concordo que seja uma pessoa que fala do céu — em certo sentido, ele só fala mesmo disso, mas com um amor incrível pela terra. Era um ser profundamente encarnado. Nos anos 60, caminhei sozinho, fora dos lugares onde “era preciso estar”. Devo dizer que nunca tive a menor necessidade de um mestre, provavelmente porque tive um pai que era realmente um pai. O que mais me impressionava nos intelectuais e literatos que conduziam o trem (no qual eu não subiria por nada deste mundo, nem mesmo para um pequeno trajeto) — o trem da língua, da palavra, da literatura (que correspondia também a outras coisas no plano social) — era sua terrível frieza. Correntes de ar gelado que cheiravam a morte. Sempre senti a morte nos pensamentos desencarnados, genéricos, abstratos. Por vezes eles dão bons livros. Mas eu não seria mais capaz de entrar numa teoria literária do que numa teoria política ou científica, porque teorizar é vestir as roupas da morte, e isso não me interessa.

 

N.C.: Um sábio oriental diria que você tentou evitar a armadilha do mental.

C.B.: Sim, pode-se dizer isso. Mas nem sempre tive clareza disso. Apesar de me obstinar, com uma teimosia infantil. Continuei obstinadamente a escrever — e a viver — a meu modo. O problema é que a fôrma universitária logo me pareceu, ela também, mortal. Eu lia muito, mas a maior parte das leituras não entrava na minha vida. Eu via passar uma inteligência, mas não a sentia como determinante em minha encarnação. Então, fiquei desempregado… (risos) Tive alguns pequenos trabalhos — por exemplo, fui atendente num hospital — mas raramente mais do que um mês. Minha melhor lembrança dessa época são os dias inteiros passados na biblioteca municipal. Sempre a mesma coisa. É um universo feminino, onde reina uma presença animal do livro. Depois, fui parar num instituto de pesquisa de arqueologia industrial. Eu tinha que organizar materialmente os colóquios. Desse posto tranquilo de observação, olhei a passagem do ar do tempo. E assim vi — dramaticamente — a economia não se bastando na sua própria área e começando a se expandir como uma epidemia ou como uma hemorragia na área cultural. Quer dizer, assisti ao momento grotesco em que as pessoas de cultura começaram a falar em gestão. O estado social das coisas, como o estado mental de uma época, tende a nos parecer eterno. Todas as espessuras que nos separam uns dos outros, todos os pesos sociais, as cretinices políticas, vivemos essas coisas como se elas fossem durar para sempre. Por exemplo, achávamos isso da União Soviética. E no entanto tudo desmoronou de uma só vez, de maneira imprevisível. E já faz vinte anos que vivemos sob o reino do discurso econômico, essa nulidade, esse discurso que lembra as línguas mortas. Mas ele não se sustenta, e portanto não vai se sustentar. Não posso dizer quando, mas sei que ele vai quebrar, e quando observo os jovens e, de vez em quando, vejo o que vem à tona, sei que a reviravolta se fará com uma incrível violência.

 

N.C.: Você escrevia, há mais ou menos quinze anos, grosso modo para um círculo restrito de 500 leitores, e de repente você está famoso, em toda parte pronunciam seu nome com uma espécie de veneração.

C.B.: Não exageremos, não sou tão conhecido. Mas pouco importa, eu me digo que, se meus livros agradam, eles devem morder o ar do tempo, algo que está por vir. Uma sede. Felizmente, os economistas vão multiplicar os estudos de mercado mas não conseguirão industrializar completamente o livro. Os editores sabem disso: há algo de essencialmente imprevisível na emergência de um grande livro. É gozado, mas, ao contrário do que se diz, eu não acho que os livros pertencem ao campo da literatura — que, afinal, é um cantinho — mas ao campo da vida, isto é, do desejo. Ora, não se pode suscitar artificialmente um desejo. As necessidades, sim, é possível criá-las e satisfazê-las, ou não. Preciso de uma maçã, eu a compro, eu a como, a necessidade é momentaneamente satisfeita. O desejo é outra coisa, é uma história de amor, uma história passional que vai entrar profundamente na vida do outro. O desejo abala a carne, o espírito, tudo.

 

N.C.: Novo, renovação… No entanto, dizem que você nunca deixa o Creusot, que você jamais viaja.

C.B.: Nunca gostei de viajar, é verdade. Uma só coisa me interessa: o encontro. Penso que ele pode se dar na porta de casa como no fim do mundo. Não sinto necessidade de dar aos meus encontros paisagens outras, porque acredito que está tudo ali, no pátio de recreio onde o garoto está sentado vendo os outros brincarem… É um pátio pequeno, numa escola pequena, numa cidadezinha, e no entanto o universo está todo lá. Estou persuadido disso.

 

N.C.: Esse é o Sidarta de Herman Hesse, que, depois de uma vida passada a buscar nos quatro cantos do mundo, descobre que tudo estava ali, na margem do rio. Você descobriu isso quando era criança!

C.B.: Foi um golpe de sorte! Quer sejamos ricos ou pobres, quer viajemos muito ou fiquemos sempre no mesmo lugar, vivemos todos, afinal, um pobre punhado de coisas, de pobres ideias fixas, um punhado de desejos. A riqueza, a abundância vem da forma que damos a esse punhado de coisas E essa forma é única para cada um.

 

 

Christian Bobin

  Entrevista do escritor Christian Bobin para a revista francesa Nouvelles Clés em março de 2004.  Tradução de Lúcia Leal Ferreira Um permanente apaixonado, mas que soube integrar ao seu júbilo e às suas febres a lentidão, a paciência, o silêncio e até o vazio. Um homem que sabe nos fazer sentir a plenitude luminosa […]

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15 Abril 2015

Que tal um pouco de leitura?

 

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony
Artigo I 
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II 
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III 
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV 
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único: 
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V 
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI 
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII 
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX 
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X 
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI 
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII 
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único: 
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII 
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final. 
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964 

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Que tal um pouco de leitura?   Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente) A Carlos Heitor Cony Artigo I  Fica decretado que agora vale a verdade. agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira. Artigo II  Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm […]

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