Português é legal




26 Julho 2018

ALITERAÇÃO

É um recurso linguístico, ou figura de linguagem, em que se repetem sons CONSONANTAIS (consoantes) a fim de se criarem ritmo e impacto sonoro. Ou seja, é uma ferramenta de estilo.

É muito comum nos trava-línguas, como “O rato roeu a roupa do rei de Roma.”

 

Exemplos na literatura:

“De tudo que é nego torto

Do mangue e do cais do porto

Ela já foi namorada

O seu corpo é dos errantes

Dos cegos, dos retirantes

É de quem não tem mais nada”

(Chico Buarque)

 

“ela espanta e encanta
na mesma rima
e na mesma cama”

(Léo Ottesen)

 

ASSONÂNCIA

Similar à aliteração, mas se repetem sons VOCÁLICOS (vogais). Difere-se da simples rima uma vez que não necessariamente aparece no final das palavras e frases ou versos.

 

Exemplos na literatura:

“Lava roupa todo dia, que agonia

Na quebrada da soleira, que chovia

Até sonhar de madrugada, uma moça sem mancada

Uma mulher não deve vacilar”

(Luiz Melodia)

 

ela espanta e encanta
na mesma rima
e na mesma cama

(Léo Ottesen)

 

MALSONÂNCIA

A aliteração e a assonância, enquanto figuras de estilo, servem a propósitos artísticos, são ferramentas que os autores utilizam a fim de causar algum efeito, como os sonoros de ritmo (principalmente, na música, mas também na poesia) e os sonoros de imagem. Por exemplo: o T (com sons de T e TCH, “tanto”, “tinha”) e o K (“quanto”, “casa”, “cai”) são sons secos, lembram algo batendo, por isso são utilizados em textos que tenham a ver com alguma forma de violência, ainda que branda.

Ainda que de forma inconsciente, os autores utilizam essas ferramentas com um sentido específico, ou seja, não são por acaso.

Já quando essa utilização é acidental, sem propósito, e causa algum desconforto no leitor ou ouvinte, ela é malsonante, isto é, soa mal.

 

Exemplo do próprio texto:

“(…) são sons secos…”

A repetição do S faz com que a voz na nossa mente sibile, imite uma cobra, mas isso não tem função poética, já que o texto é explicativo. Nesse caso, a aliteração não é uma figura, mas um vício de linguagem chamado de malsonância.

 

CACOFONIA

Um tipo de malsonância em que se formam outras palavras a partir dos sons já existentes.

 

Exemplos clássicos:

“Eu amo ela.” (moela)

“Eu vi ela.” (viela)

“Música gaúcha.” (caga)

 

BÔNUS: Durante uma aula de conversação em francês, eu disse que, do alto do apartamento, se via “une mer de personnes” (um mar de gente). Minha professora disse que tava ótimo, mas eu devia tirar a merda (mer de).

 

ALITERAÇÃO É um recurso linguístico, ou figura de linguagem, em que se repetem sons CONSONANTAIS (consoantes) a fim de se criarem ritmo e impacto sonoro. Ou seja, é uma ferramenta de estilo. É muito comum nos trava-línguas, como “O rato roeu a roupa do rei de Roma.”   Exemplos na literatura: “De tudo que é […]

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Léo Ottesen é escritor, poeta e professor de escrita criativa.



4 Julho 2018
Usamos “nenhum” com sentido de nada ou ninguém, enquanto “nem um” tem o sentido de “nem sequer um”, “nem um único” ou “nem ao menos um”. O mesmo com os femininos.
Veja:
“Nenhum aluno veio à aula.”
Ninguém veio à aula.
“Nem um aluno veio à aula.”
O mínimo que se esperava era que um aluno viesse, mas nem mesmo um aluno veio.
_____
“Não tenho dinheiro nenhum.”
Não tenho nada de dinheiro.”
“Não tenho nem uma moeda.”
Eu poderia, pelo menos, ter uma moedinha, mas não tenho nem isso.
“Não tenho nenhuma moeda.”
Só tenho cédulas, nada de moedas.

Usamos “nenhum” com sentido de nada ou ninguém, enquanto “nem um” tem o sentido de “nem sequer um”, “nem um único” ou “nem ao menos um”. O mesmo com os femininos. Veja: “Nenhum aluno veio à aula.” Ninguém veio à aula. “Nem um aluno veio à aula.” O mínimo que se esperava era que um […]

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Léo Ottesen é escritor, poeta e professor de escrita criativa.



26 Junho 2018

Conhecem aquela história sobre a gente não saber se livrar da água suja da banheira do bebê sem jogar o bebê junto?

Quando tentamos escapar do gerúndio com medo de estarmos “cometendo” gerundismo, estamos fazendo exatamente isso: jogando fora o bebê.

O gerundismo foi vítima das fake news quando a gente nem sabia que isso existia. Espalharam por aí algumas grandes mentiras sobre ele, como a de que gerundismo significa excesso de gerúndio. Há vários textos na internet em que o autor comenta que gostaria de estar estudando mais, vivendo mais, ganhando mais, dormindo mais, e de repente interrompe as ideias para confessar a culpa: “quanto gerundismo!”.

Talvez esse medo de ser contaminado pela epidemia do gerundismo não existisse se tivessem explicado direitinho que gerundismo é outra coisa e que o gerúndio – pasmem – é benigno.

Vejam este diálogo:

— Posso te ligar hoje às 15h?

— Nesse horário vou estar fazendo prova. Pode ser às 16h?

 

“Vou estar fazendo” é o jeito informal de dizer “estarei fazendo”. Ambos são igualmente corretos, estruturas perfeitas (e canônicas) da língua portuguesa. Nesse caso, a pessoa deixou claro que no horário mencionado a ação de fazer prova estará em curso, portanto o uso do gerúndio está impecável!

O gerundismo acontece quando o atendente diz que “vai estar procurando” sua ficha, em vez de simplesmente dizer que vai procurar. É essa estrutura (verbo ir conjugado + verbo estar no infinitivo + verbo no gerúndio) que caracteriza o que vem sendo chamado de gerundismo, mas só em alguns contextos. Como observou o professor Sirio Possenti, o uso do gerúndio nesse caso cria a impressão de que aquela ação, que deveria ser pontual, vai se estender por algum tempo. Por isso é tão pouco indicado o uso do gerundismo no telemarketing: porque se cria a sensação de que o falante está fazendo corpo mole e arrastando a resolução do problema com uma preguiça enorme. Um “vou estar resolvendo” em vez de “vou resolver” parece indicar que a pessoa vai estar procrastinando e vai estar rastejando e vai estar empurrando a tarefa lá pra frente.

Claro que indicar uma ação duradoura no futuro pode ser uma das intenções do falante (“Vou perder o show amanhã porque ESTAREI DANDO AULA no mesmo horário”). Essa estrutura, portanto, é gramaticalmente correta, mas pode gerar um EFEITO DE SENTIDO indesejado dependendo do contexto em que é empregada.

Um cliente quer ser atendido com agilidade, e não “estar sendo atendido”. Quer que você envie logo os produtos, e não que “vá estar enviando”. Espera que você procure logo o registro das chamadas anteriores, e não que “vá estar procurando”. Ao ouvir que você “vai estar solucionando”, o cliente já deduz que a solução não será instantânea. Mas não há problemas dizermos frases como “Prefiro fazer a reunião esta semana porque VOU ESTAR VIAJANDO no próximo mês” (ou “estarei viajando”). Se nos parece possível dizer tanto “VOU FAZER um curso” como “FAREI um curso”, por que implicar com “vou estar fazendo um curso”? É claro que “farei” soa mais incisivo e mais formal que “vou fazer”, mas, repito, gramaticalmente, as duas construções são possíveis. O português, assim como outras línguas, tem duas formas de indicar o futuro. Vou comparar com o francês:

Forma analítica: Eu vou fazer | Je vais faire

Forma sintética: Eu farei | Je ferai

Para o professor Sirio Possenti, dizer que “vai estar fazendo”, mesmo que denote certa falta de compromisso, também expressa uma intenção de ser gentil e não grosseiro. Não parece mais delicado rejeitar um convite afirmando que “não vai poder estar aceitando”?

Ou seja: não é verdade que o gerundismo é errado, como não é verdade que ele é desnecessário. Se ele confere novas nuances de sentido ao que está sendo dito, ele tem uma função real.

Por fim, também não é verdade que gerundismo é excesso de gerúndio. Portanto, pode continuar sonhando, respirando, reclamando, estudando, enriquecendo, viajando, fazendo planos e vivendo tranquilamente com suas ações duradouras, que, linguisticamente, não há nada de errado com isso. Aliás, se houvesse, você deixaria de gerundiar? Eu, não.

 

Sugestão de leitura mais completa sobre o assunto: http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao04/04_006.php

Conhecem aquela história sobre a gente não saber se livrar da água suja da banheira do bebê sem jogar o bebê junto? Quando tentamos escapar do gerúndio com medo de estarmos “cometendo” gerundismo, estamos fazendo exatamente isso: jogando fora o bebê. O gerundismo foi vítima das fake news quando a gente nem sabia que isso […]

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Carol é mestre em Educação, especialista em Tradução e graduada em Letras (inglês e português). É coautora da coleção Circles pela editora FTD. Também trabalha com edição de livros didáticos de língua portuguesa.



19 Maio 2018

Cientistas políticos, psicanalistas, partidos aliados ou de oposição e outros grupos certamente têm suas maneiras de analisar o slogan escolhido pela equipe do presidente Michel Temer para comemorar os dois anos de governo. Vamos tentar, aqui, um viés linguístico, partindo do pressuposto de que o tropeço não foi intencional.

O primeiro aspecto digno de nota é o uso do verbo VOLTAR, que pode ter uma série de sentidos: retroceder (“Voltamos à estaca zero”), recomeçar (“Voltei a fumar”), recuperar uma posição de destaque (“O campeão voltou!”), entre outros.

O segundo é a frase “20 anos em 2”. Supondo que a ideia pretendida fosse de que “O Brasil está de volta” porque “avançou 20 anos em 2”, podemos considerar que a segunda frase seria uma explicação da primeira. Para alguns gramáticos, o ideal, nesse caso, não seria empregar uma vírgula, considerada um erro, mas dois pontos (:). Observe:

“O Brasil voltou: 20 anos em 2”

Talvez não evitasse as piadas dos opositores que acham que a frase faz mais sentido sem pontuação, mas amenizaria o efeito de estranhamento.

Há também os gramáticos para os quais a vírgula é aceitável, pois ajudaria a intercalar dois trechos justapostos. Como todos notaram, no entanto, a pontuação foi insuficiente para criar o efeito esperado. Por quê?

Primeiramente porque, sendo sucedido por uma expressão de medida temporal, o verbo “voltar” imediatamente cria a ideia de retorno a um tempo anterior. Portanto, mesmo havendo numerosas possibilidades de sentido para “voltar”, a sugestão de retorno a um período precedente que é criada pela continuação do slogan não deixa ao leitor muita escolha senão entender o verbo como indício de um retrocesso. Talvez uma alteração do pretérito para o presente (“O Brasil está de volta!”) ajudasse a amenizar o efeito.

Há, também, um fator extralinguístico a ser considerado. Aparentemente a intenção era adaptar o bordão de Juscelino Kubitschek (“Brasil, 50 anos em cinco”). O novo slogan, porém, toca em uma ideia que permeia o imaginário popular de parte dos brasileiros, aqueles que se opõem ao governo: a de que as medidas tomadas atualmente anulam avanços conquistados nas últimas décadas.

Por fim, vi que alguns leitores, ao se depararem com a frase “O Brasil voltou”, perguntaram a si mesmos: “voltou de onde?”.

Considero, portanto, que o slogan tem três grandes problemas: 1) escolha inadequada de vocábulo; 2) pontuação frágil; 3) desatenção (ou desdém) em relação a ideias que estão em embate na nossa sociedade.

Parece que o governo tem agora um novo mote: “Maio de 2016 – Maio de 2018 – O Brasil Voltou”. Melhorou para vocês?

Cientistas políticos, psicanalistas, partidos aliados ou de oposição e outros grupos certamente têm suas maneiras de analisar o slogan escolhido pela equipe do presidente Michel Temer para comemorar os dois anos de governo. Vamos tentar, aqui, um viés linguístico, partindo do pressuposto de que o tropeço não foi intencional. O primeiro aspecto digno de nota […]

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Carol é mestre em Educação, especialista em Tradução e graduada em Letras (inglês e português). É coautora da coleção Circles pela editora FTD. Também trabalha com edição de livros didáticos de língua portuguesa.