m01 m02 m03
09.Mai.2017



Como usuários da língua portuguesa, é comum que nós, brasileiros, ao entrar em contato com aspectos da fala e da escrita que nos chamam atenção, passemos a formular hipóteses acerca de como a língua funciona. É daí que surgem ideias como a alegação de que a língua portuguesa é uma das mais difíceis do mundo, uma premissa amplamente aceita como verdadeira e continuamente refutada por linguistas.

Foi entrando em contato com percepções como essa que o professor Gabriel de Ávila Othero (UFRGS) decidiu escrever o livro Mitos de Linguagem (Editora Parábola), com o objetivo de desmentir algumas das formulações equivocadas mais comuns que leigos e estudantes dos primeiros anos do curso de Letras criam a respeito da língua. Em dez capítulos que respondem diretamente a ideias muito populares (e falsas) acerca do assunto, o autor apresenta argumentos que podem conduzir os leitores em direção à construção de ideias mais bem fundamentadas sobre como funciona a língua portuguesa, especificamente, e as línguas de modo geral.

Uma explicação primordial para compreendermos as análises empreendidas no livro é a de que o termo “gramática” também pode se aplicar ao conhecimento gramatical inconsciente que todo falante tem a respeito de sua língua materna, e não apenas às recomendações que costumamos encontrar nos manuais de língua portuguesa. Essa acepção é crucial para compreendermos a discrepância entre a língua que é falada de fato (e internalizada pelos falantes) e a língua que nos é apresentada como ideal.

Segundo o autor, a ideia de que existe um português correto, que todos estudam na escola por mais de dez anos e raramente dominam, reforça o sentimento de que a língua portuguesa é algo realmente inatingível. É por esse motivo que, em geral, os estudiosos fazem objeções às análises gramaticais equivocadas presentes nas gramáticas normativas, já que apresentam um ideal linguístico irreal e inalcançável.

Mas por que as gramáticas trazem regras e prescrições que podemos considerar estapafúrdias? Um exemplo citado é o pronome de 2ª pessoa do plural em português, “vós”, cujo uso foi abandonado há tempos tanto por falantes cultos como por escritores contemporâneos. Entre vários outros exemplos, esse caso evidencia que o que está prescrito nas gramáticas costuma ser “a norma cultuada, mais idealizada do que realista, mais lusitana do que brasileira, mais antiga do que contemporânea e mais prestigiada do que deveria” (p. 56). Um problema decorrente dessa tendência é que, ao tomarmos a norma idealizada da gramática normativa como a única admissível, abrimos espaço para taxar pejorativamente aqueles que se desviam dela.

Em resposta à ideia de que o português figura entre as línguas mais difíceis do mundo, o autor esclarece que não se pode afirmar a existência de um grupo de línguas fáceis e difíceis em si. A explicação é que algumas línguas podem ser mais “simples” que outras em alguns aspectos específicos e, ao mesmo tempo, ser mais “complexas” em outros. E de onde vem a impressão de que há línguas mais fáceis, como o inglês, por exemplo? Gabriel de Ávila Othero explica que costumamos julgar o grau de dificuldade de alguma língua também por comparação à nossa própria língua (o que é diferente de considerar a língua simplesmente fácil ou difícil por si). É o mesmo princípio de quando discutimos os sotaques, já que em ambos os casos estamos lidando com uma questão de ponto de vista, acima de tudo.

Para o professor, talvez se possa afirmar que a única língua mais simples de fato seria uma língua não natural, uma língua artificial (como o esperanto, que foi criado com a intenção de que se tornasse uma segunda língua universal, falada e compreendida por todos, razão por que foi desenvolvido com regras gramaticais que buscam simplicidade e lógica).

Deixando um pouco de lado a discussão sobre a língua portuguesa, que é bastante aprofundada em vários dos capítulos do livro, chamo atenção para o mito “A língua dos índios é muito rudimentar”, tratado no capítulo 7. A exposição tem início com uma correção: não existe uma “língua dos índios”, mas diversas línguas indígenas faladas por diferentes comunidades. Hoje, no Brasil, são faladas cerca de 180 línguas indígenas (estima-se que em 1500, à época da chegada dos portugueses ao Brasil, o número era sete vezes maior: 1270 línguas). Como afirma Gabriel de Ávila Othero, todas as línguas indígenas brasileiras podem ser consideradas ameaçadas atualmente, pois contam com um número muito baixo de falantes (76% delas têm, em média, menos de 200 falantes, e nenhuma das 180 línguas documentadas tem mais de 30 mil falantes).

Este é um pequeno recorte do rico livro Mitos de linguagem, cuja leitura recomendo fortemente, e no qual também são discutidas ideias como “as mulheres falam demais”, “a gramática do português não tem lógica”, “todo mundo tem sotaque, menos eu”, “depois de adulto, é praticamente impossível aprender uma nova língua” e “os animais têm uma forma de comunicação tão complexa quanto a nossa”.

Como a mera observação da língua pode nos levar a ideias que já vem sendo refutadas há décadas, a leitura de uma obra introdutória como esta representa um caminho viável para uma construção de conhecimentos mais responsável, baseada em evidências e estudos científicos que vêm sendo conduzidos por especialistas há bastante tempo.

 

O livro pode ser adquirido no site da Parábola Editorial ou em livrarias.

Mitos_de_linguagem_parabola_gabriel_avila_othero

Nenhum comentário

Categorias: LeituraLinguística |




25.Abr.2017



Neste vídeo, Pablo discute o significado de pleonasmo, mostra alguns exemplos e explica por que é uma bobagem a ideia de que pleonasmo é sempre um erro!

Para a conceituação de pleonasmo, foram usadas a Gramática Houaiss (José Carlos de Azeredo) e a Nova Gramática do Português Contemporâneo (Celso Cunha, Lindley Cintra).

Curta este vídeo, se inscreva no canal e acompanhe também as outras redes:

| Instagram e Facebook: portugueselegal
| Twitter: @portelegal
| E-mail: portugueselegal@gmail.com

Nenhum comentário

Categorias: Língua |




13.Mar.2017



Muitos dicionários definem a ironia como uma figura por meio da qual dizemos o contrário daquilo que realmente pretendemos expressar. No entanto, essa característica não é suficiente para ensinar alguém a ser irônico, principalmente por escrito, quando não contamos com o recurso da entonação. Neste vídeo, Carol ensina outros aspectos para quem quer ser irônico por escrito. Assistam e se inscrevam em nosso canal!

 

1 Comentário

Categorias: DicasLíngua |




03.Mar.2017



NRKbeta quer manter na sua caixa de comentários discussões produtivas e construtivas. Para isso, quem quiser comentar alguns de seus artigos precisa responder a três perguntas antes de entrar no debate.

comentario_site_noruegues_quiz

 O site tecnológico da empresa pública de rádio e televisão da Noruega, a NRK, pôs em prática, no último mês, uma nova forma de controle da utilização de suas caixas de comentários.

Há duas semanas, o NRKbeta publicou uma peça explicativa sobre a proposta de lei relacionada à vigilância digital na Noruega. Apesar de o tema ser controverso e capaz de iniciar discussões inflamadas, os comentários no texto mantiveram-se cordiais e construtivos, com vários links de pesquisas ou livros sugeridos. O NRKbeta diz que a qualidade do debate se deve ao novo mecanismo aplicado a quem pretende deixar um comentário em seu site.

Em alguns artigos, os leitores que quiserem comentar terão de responder a três questões básicas de múltipla escolha sobre o texto lido. O objetivo é confirmar que os leitores realmente leram a história antes de permitir que façam suas intervenções.

“Nós pensamos que deveríamos fazer a nossa parte e tentar garantir que as pessoas estejam em sintonia antes de comentarem. Se todos concordarem que é isso que o artigo diz, então têm uma base muito melhor para o comentar”, afirmou ao NiemanLab, Stale Grut, jornalista do NRKbeta.

O jornalista e o diretor do site, Marius Arnesen, explicam que o NRKbeta é uma das poucas seções que oferece uma caixa de comentários aos leitores, criando uma comunidade fiel que normalmente tem conversas positivas. No entanto, algumas postagens atraem leitores que não são assíduos e as discussões saem de controle.

Começando a pensar numa estratégia para tentar controlar o tipo de conversas que possam surgir, a redação planejou essa espécie de questionário porque, assim, pelo menos garantia-se que os leitores tinham realmente lido o texto, e que teriam, portanto, a mesma base para a discussão. “Estamos tentando estabelecer uma base comum para o debate”, diz Arnesen ao NiemanLab. “Se queremos debater alguma coisa, é importante saber o que está no artigo e o que não está no artigo”.

Por ora, apenas alguns artigos trazem as questões para os leitores, até que se comprove que a estratégia realmente surtirá efeito. Uma vez provada a utilidade desse sistema, o quiz, que é criado pelo autor do texto, pode ser estendido a todas as publicações.

Artigo adaptado de: Publico.pt | Texto original: Niemanlab.org

 

 

yt  ig  fb  tw

Nenhum comentário

Categorias: Sem categoria |