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22.Jul.2015



Por Renato Tresolavy

Em maio deste ano, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou o ranking internacional de desempenho em educação. Dos 76 países avaliados, o Brasil ficou na 60ª posição, ou seja, lugar bem pouco confortável que revela a baixa qualidade de ensino no país. Nós brasileiros, no dia a dia, convivemos com uma rotina de greves de professores, infraestrutura escolar precária, e ultimamente descaso dos governos com relação aos investimentos em educação, problemas que certamente geram impactos diretos e negativos nas avaliações de desempenho que a OCDE revela.

Penso que para além desses problemas, todos muito graves e que precisam ser administrados e minimizados continuamente, é preciso analisar também, até com mais urgência, o sistema escolar que ainda hoje vigora não só aqui no Brasil, mas também na maior parte do mundo. A escola de hoje, do século XXI, ainda é, em muitos aspectos, bem parecida com o modelo de escola criado no século XII (crianças nas carteiras e professores nas salas de aula) e que se consolidou na Inglaterra, em meados do século XIX, época da Revolução Industrial, e se reproduziu pelo mundo. Matriculamos nossos filhos em escolas que ainda hoje funcionam como se estivessem preparando cidadãos para os trabalhos mecânicos de linhas de montagem. Até mesmo a estrutura da escola e seu funcionamento de aula em aula (com disciplinas geralmente desconectadas entre si) lembra uma esteira industrial.

Evidentemente que cada vez mais o modelo de escola que temos hoje, de característica industrial, não pode atender as demandas de uma sociedade como a nossa, cada vez mais digital, diversificada, interdependente, globalizada e em constante mudança. O jovem que hoje vai para a escola é aquele que em casa acessa Youtube e Google na tela de seu computador ou mesmo celular, isso para citar somente dois gigantes de tecnologia que são fontes de informação e conhecimento. Não deve causar nenhum espanto em pais e professores o tédio, a passividade e desmotivação que os alunos sentem ao chegar à escola industrial de métodos quase medievais. Para além da solução das crises que rondam a escola, é preciso solucionar a própria escola.

O autor e professor espanhol Ángel Pérez Gómez, no livro Educação na Era Digital: a Escola Educativa, defende que a escola de hoje ensina, acima das disciplinas, cinco maus exemplos: confusão, posição, indiferença, dependência emocional e intelectual e uniformidade e falta de identidade. A lista de problemas é bastante categórica e dura com o sistema escolar, mas não se pode ignorá-la, se realmente professores, pais, alunos, governos e órgãos privados quiserem de fato iniciar um processo de transformação na escola. Caso contrário, continuaremos obrigados a repetir eternamente o refrão da canção Another Brick in the Wall, de Pink Floyd: “Não precisamos de nenhuma educação/Todos são somente tijolos na parede”. A música e o clipe da banda são ainda bastante atuais, infelizmente.

A confusão de que fala o autor refere-se ao fato de que muito do que se estuda na escola é matéria descontextualizada, desconectada da vida real e dos projetos pessoais dos alunos, fragmentada por disciplinas que não dialogam entre si. A posição é a obrigação de os alunos ocuparem seus lugares de maneira fixa, sem espaço para liberdade física e intelectual. Particularmente pra mim, a indiferença é o ponto mais grave apontando por Ángel: na escola, segundo ele, não se deve acreditar demais em nada. As aulas são divididas em fragmentos de 50 minutos, separadas pelo sinal que toca a cada troca de aula. Tudo na escola começa e termina de acordo com o sinal da escola: se algum projeto, alguma ideia estiver sendo desenvolvida em uma aula e o sinal tocar, fim de projeto, fim de ideias, passa-se para outra aula, para outra ideia, ou seja, nada vale a pena na escola, a sensação que fica é de que tudo na escola é descartável e substituível.  A dependência emocional e intelectual liga-se ao fato de que tudo na escola funciona baseado em recompensas e punições, notas e reconhecimento e na necessidade de dizer o que vale e o que não vale. Essa dependência gera uniformidade e falta de identidade: não há optatividade muito menos espaço para o desenvolvimento de projetos pessoais.

O Brasil é pródigo em buscar respostas simples para problemas sociais complexos e em atacar os efeitos de um problema e não as suas causas (as discussões inócuas sobre redução da maioridade penal comprovam essa característica nacional). Acredito que o desempenho brasileiro em educação só passará a apresentar níveis aceitáveis quando efetivamente a sociedade brasileira como um todo repensar o sistema escolar em si para propor uma revolução na educação do país, começando por tentar superar os cinco aspectos escolares levantados pelo autor espanhol. E essa revolução é urgente, necessária e praticável, embora não seja  fácil de ser deflagrada. Dela depende o futuro da educação no país e consequentemente o futuro de crianças e jovens, que não podem ser responsabilizados pelas deficiências de aprendizagem que apresentam. Nosso sistema escolar é antiquado e não satisfaz as demandas sociais, profissionais e afetivas dos jovens de hoje. Se há um culpado para tantos resultados ruins em educação, esse culpado é o sistema escolar em si (e os administradores desse sistema) que, de forma geral, mas não unânime, confunde, uniformiza e cultiva indiferença. Quem sabe essa revolução dentro do sistema escolar, a partir de seu núcleo, possa ser o fator preponderante para impulsionar a qualidade da educação no país?

 

RTRenato Tresolavy

Meu nome é Renato Luiz Tresolavy, sou editor de livros didáticos e fui professor de escola pública. Neste espaço do site Portuguêé Legal, gentilmente cedido pela minha amiga Carol Pereira, proponho discutir com estudantes, pais e professores assuntos que envolvem o ensino e aprendizagem de gramática, produção de textos, leitura e literatura. A cada semana, pretendo trazer aqui um tema diferente sobre o universo maravilhoso do Português.

 

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18.Mar.2015



Por Renato Tresolavy

Sou fã de contos mais do que de romances. Adoro aquelas coletâneas recheadas de contos de vários autores ou mesmo coletâneas de contos de um mesmo autor, tanto faz. Um de meus livros favoritos do gênero é a coletânea de contos escolhidos pelo escritor italiano Ítalo Calvino e publicada pela Companhia das Letras: Contos Fantásticos do Século XIX. O livro é imperdível.

Calvino escolheu 26 contos para compor a coletânea, histórias de Guy de Maupassant, Henry James, Charles Dickens, Edgar Allan Poe e muitos outros escritores famosos de diferentes tradições literárias. Cada um desses contos nos coloca frente a frente com o sobrenatural. São histórias de fantasmas, de muito mistério e de horror, contos que misturam sonho, pesadelo e realidade e que nos atiram em uma atmosfera de tensão e medo constantes. Para se ter uma ideia, alguns desses contos já nos assustam pelo título: O olho sem pálpebra, de Philarète Chasles (1799-1873), e A morte amorosa, de Theóphile Gautier (1811-1872), são dois exemplos. No livro, há muitos outros títulos sinistros. Contudo, como diz o meu filho, não quero dar muitos spoilers (em português, em tradução livre, seria estraga-prazeres) para não estragar a surpresa daqueles que não conhecem a obra.

Foi esse livro de contos que me motivou a escrever nesta semana. Mas não para falar exatamente do livro em si e de seus contos assombrosos, e sim de uma passagem dele que me fez relembrar um dos quatro tipos de produção de texto conhecidos: a descrição. As outras três produções são a narração, a argumentação e a injunção. O tema deste texto é a descrição como tipo textual, seu conceito e suas características. As descrições presentes nos contos da coletânea organizada por Calvino chamam a atenção pelo detalhamento de informações e pela expressividade dos recursos linguísticos empregados em cada conto.

Descrições são mais comuns do que a gente imagina e estão presentes em textos de diversos gêneros, de textos literários a manuais de instruções. Também não são raras as ocasiões, em nossa comunicação diária, em que sentimos necessidade de descrever algo, alguém ou mesmo algum lugar para nosso interlocutor. Nesses momentos, temos de fazer um bom uso das palavras para dar forma ao que queremos explicar ou apresentar, seja uma pessoa, um objeto, seja um determinado local. Como os outros três tipos de texto, a descrição tem uma estrutura particular que obedece a alguns passos básicos: é importante observar e selecionar aquilo que vai ser descrito e suas características, ordenar as informações e só depois elaborar o texto. Comparações e metáforas, além de adjetivos, são recursos linguísticos comuns para compor descrições.

Há diferentes tipos de descrições, que se caracterizam, por exemplo, pela objetividade ou subjetividade: a descrição técnica deve ser objetiva e precisa, é própria de textos científicos e tem caráter informativo; a descrição literária, por sua vez, é subjetiva e expressiva, tem caráter estético e visa provocar emoções. Independentemente do tipo, as descrições devem realçar detalhes, isto é, o segredo de uma boa descrição é destacar minúcias do alvo a ser descrito.

Na literatura, há uma descrição característica chamada retrato. O retrato apresenta pessoas ou personagens, e quando essa modalidade de descrição se concentra na aparência externa do ser descrito recebe o nome de prosopografia. Quando se concentra em personalidade, ideias e sentimentos, ganha o nome de etopeia. É importante dizer que tanto a prosopografia quanto a etopeia podem aparecer em um mesmo trecho descritivo, ou seja, um tipo de retrato não exclui o outro. No entanto, no caso do excerto que selecionei como exemplo de descrição, só a prosopografia aparece.

Retirei o trecho em questão do conto A morte amorosa, de Theóphile Gautier. A história toca no tema dos mortos-vivos, no caso específico do conto, de uma morta-viva, uma vampira, cujo nome é Clarimonde. Romuald, sacerdote recém-ordenado, fica completamente transtornado quando percebe a presença daquela estranha mulher na cerimônia de seu ordenamento. Uma tentação irresistível que o fazia vacilar irremediavelmente. De acordo com o próprio Romuald, “moça de beleza rara e vestida com a magnificência dos reis. Foi como se escamas estivessem caindo de minhas pupilas. Tive a sensação de um cego que subitamente recuperasse a visão.”

Hipnotizado pela figura de Clarimonde, Romuald começa a descrever a moça em seus detalhes, apresentando a vampira ao leitor, que ainda não a conhece. É possível perceber na descrição o ponto de vista de Romuald sobre a pessoa que observa: o padre descreve Clarimonde de forma subjetiva e idealizada, tudo nela é perfeito. Vemos aquilo que Romuald vê; sob o ponto de vista dele conhecemos essa vampira perturbadora. Esse é um típico caso de descrição presente em textos literários, como contos e romances.

A descrição que Romuald faz de Clarimonde é preparada e executada de forma magistral: primeiro há a observação do ser descrito, depois a seleção de características, em seguida a organização de informações e redação do texto. Os olhos de Romuald passeiam pelo corpo de Clarimonde, depois pelos cabelos, passam pela face da moça, concentram-se nos olhos, ressaltam o nariz da vampira etc. A descrição adota uma direção que parte do mais geral para chegar ao particular, do corpo para cada parte dele. Depois, Romuald volta a enxergar Clarimonde de forma mais geral, apresentando a cor nacarada (rosada ou carmim) do vestido que usava, detalhando logo depois as mãos da moça. Adjetivos, comparações e metáforas são cuidadosamente selecionados. Nós leitores acabamos também hipnotizados por aquela criatura tão inusitada quanto sedutora. Com vocês, então, a vampira Clarimonde:

 

            “Era bastante alta, com um corpo e um porte de deusa; seus cabelos, de um louro suave, se separavam no alto da cabeça e escorriam sobre as têmporas como dois rios de ouro; parecia uma rainha com seu diadema; sua fronte, de uma brancura azulada e transparente, estendia-se larga e serena sobre as arcadas de dois cenhos quase marrons, singularidade que realçava ainda mais o efeito das pupilas verde-mar de uma vivacidade e um brilho insuportáveis. Que olhos! Como um raio, decidiram o destino de um homem; tinham uma vida, uma limpidez, um ardor, a humanidade brilhante que eu nunca tinha visto num olho humano; dali escapavam raios parecidos com flechas e que eu via nitidamente atingirem meu coração. Não sei se a chama que os iluminava vinha do céu ou do inferno, mas com toda a certeza vinha de um ou outro. Aquela mulher era um anjo ou demônio, e talvez os dois; certamente não saía do flanco de Eva, a mãe comum. Dentes da mais bela cor de pérola do Oriente cintilavam em seu sorriso vermelho, e pequenas covinhas se abriam a cada inflexão da boca no cetim rosa de suas faces adoráveis. Quanto ao nariz, era de uma fineza e de um orgulho imperiais, e indicava a mais nobre origem. O reflexo brilhante das ágatas brincava sobre a pele lisa e acetinada de seus ombros seminus, e fileiras de grandes pérolas claras, de um tom quase semelhante ao de seu pescoço, desciam sobre o colo. De vez em quando ela mexia a cabeça com um movimento ondulante de cobra ou de pavão que estufa o peito, o que conferia um leve arrepio à gola alta, plissada e bordada que a envolvia como uma treliça de prata.
Usava um vestido de veludo nacarado, e de suas largas mangas forradas de arminho saíam mãos patrícias de uma delicadeza infinita, com dedos compridos e redondos, e de uma transparência tão ideal que deixavam passar o dia como os da aurora.”

 

 

RTRenato Tresolavy

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03.Mar.2015



 Por Renato Tresolavy

 

Encontrei em um interessante artigo que trata da relação entre jogos digitais e aprendizagem uma expressão original para designar o novo homem que surge diante de nossos olhos: a espécie “Homo game”. O conceito foi criado pelo escritor e professor italiano Gianfranco Pecchinenda e, para mim, pode perfeitamente fazer parte daquelas conhecidas linhas da evolução humana, logo após da já superada espécie Homo sapiens sapiens. Segundo o autor, o homo game está “integrado a uma realidade tecnológica, mais autônoma e independente, e se constitui em uma hibridação entre console, o software, a mente que joga e o jogador que ativa tudo.”.

É evidente que os jovens que o professor encontra hoje na sala de aula pertencem a essa espécie nova, não há como negar. Geralmente ele tem computador em casa, vídeo game conectado na TV, celular como companheiro inseparável e tablet nas horas vagas. O arsenal de opções tecnológicas é enorme e, felizmente, cada vez mais acessíveis, incluindo o acesso à rede de banda larga. Cada vez mais a escola também tem sido equipada com todo o tipo de recurso digital para acompanhar esse mundo em transformação, e os professores, por sua vez, precisam estar cientes dessa evolução e incorporar, sempre que possível, a tecnologia em sua prática pedagógica. A escola não pode ficar à margem da sociedade, não pode negá-la, ignorá-la, se agarrar a antigas práticas, resistir ao que acontece fora de seus muros, sob pena de ter sua função secular contestada.

O Homo game que se materializa diante de nossos olhos requer o desenvolvimento de competências próprias para o século XXI: criatividade, pensamento crítico, capacidade de resolver problemas e tomar decisões. E requer também habilidades e competências para manipular tecnologias de informação e comunicação e também para cuidar de seu próprio desenvolvimento profissional.

Alunos e professores têm muito a ganhar com os jogos digitais na educação. Argumentos que defendem essa tese não faltam e há boa literatura especializada disponível no mercado que trata do tema. Segundo o livro Aprendizagem baseada em Jogos digitais, de Marc Prensky, há alguns aspectos interessantes que deveriam pautar um bom jogo digital. De acordo com o livro, no entanto, o que deve sempre prevalecer em jogos digitais é a interação, independentemente de ser um jogo para um ou mais jogadores. O jogo pode até ter gráficos ruins, ser pouco atrativo visualmente, mas se tiver interação e colaboração, ele sempre vai valer a pena, independentemente da disciplina que faz uso desses jogos.

 

As ações pelas quais os jogos digitais de aprendizagem podem ser envolventes são:

 

  • Proporcionar envolvimento intenso e passional;
  • Apresentar certo nível de complexidade: isso quer dizer que os jogos não podem ser nem muito fáceis, mas também nem muito difíceis de serem jogados. (Pensem em joguinhos de plataforma, com personagens que pulam de um lado para o outro atrás de seus objetivos);
  • Proporcionar motivação, com foco constante na experiência do jogador;
  • Proporcionar algo a ser feito, com objetivo claro e instigante, e que ofereça dificuldade aceitável;
  • Proporcionar aprendizagem dentro de uma proposta pedagógica definida;
  • Proporcionar gratificações para os jogadores, mais recompensas do que penalidades (o desafio precisa sempre estar presente);
  • Proporcionar adrenalina, com exploração e descoberta (itens escondidos, enigmas a serem desvendados…);
  • Estimular nossa criatividade e apresentar interface útil e amigável;
  • Estabelecer integração entre grupos sociais: com assistência mútua, o jogo ajuda o jogador, além das próprias parcerias entre alunos e professores;
  • Os jogos digitais, necessariamente, emocionam (fazem a gente rir, claro, porque a escola – o ensino convencional com livro-professor – muitas vezes já é muito chata, se o joguinho também for, dá licença!!!)
  • Incluir a capacidade de salvar o progresso dentro do jogo. Fundamental para que o aluno não perca suas conquistas.

 

Não é difícil encontrar jogos que reúnem algumas dessas ações ou todas elas. Minercraft, por exemplo, é um jogo digital que pode ter aplicabilidade total no processo de ensino-aprendizagem, apesar de não ter sido declaradamente projetado com fins educacionais. Febre entre os jovens (e entre os nem tão jovens assim), esse jogo já é adotado como ferramenta de ensino por quase mil escolas no mundo, segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo. Portanto, pais e professores não devem considerar os jogos digitais como potenciais inimigos da escola e da educação; jogos têm a capacidade de aliar diversão e aprendizagem, poucos recursos utilizados na escola hoje aliam essas duas características. É recomendável pesquisar e procurar entender como esses jogos funcionam e como podem também servir à aprendizagem de português, história ou matemática. Os Homo games agradecem.

 

RTRenato Tresolavy

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24.Fev.2015



 Por Renato Tresolavy

Talvez não seja exagero dizer que assim que colocamos o pé para fora da cama, somos estimulados a argumentar. Se você, por exemplo, se propôs a fazer atividade física naquela manhã e bateu uma preguiça incontrolável, você pode tentar se convencer, com argumentos, de que vale a pena acordar mais cedo para fazer exercícios, afinal é uma questão de saúde. Com a atividade física, você pode perder aqueles quilinhos a mais, aumentar sua força muscular, ganhar condicionamento cardiorrespiratório, ou seja, vai ganhar mais força e mais resistência.

A habilidade da argumentação é condição básica para sustentar opiniões, discutir ideias, defender seu ponto de vista, analisar opiniões contrárias às suas, enfim, refletir sobre o mundo, sobre a vida. Não é à toa que provas para admissão em um emprego, vestibulares e concursos públicos exigem de seus candidatos essa habilidade, por meio da conhecida redação dissertativa. Uma dissertação bem redigida mostra que o candidato possui raciocínio organizado, tem repertório de informações, apresenta bom nível de conhecimentos e sabe defender suas posições com argumentos.

É comum ouvir que o texto dissertativo-argumentativo é composto por introdução, desenvolvimento e conclusão. Mas essa composição, apesar de importante, diz pouco e também pouco ajuda na tarefa de escrever um texto do gênero. Para redigir um texto argumentativo, é preciso identificar o tema proposto, analisar algum problema envolvido nesse tema, levantar hipóteses sobre o problema, adotar uma tese e argumentar a favor dessa tese escolhida, como ensina o professor Antônio Suárez Abreu no livro Curso de Redação, publicado pela Editora Ática. Vamos a um exemplo.

Diante de um tema como a Esmola, procure analisar um problema envolvendo esse tema, faça um recorte desse tema para não expandir demais seu texto e por consequência perder o foco. O problema pode ser formulado por uma pergunta como: dar esmolas perpetua a miséria? É essa pergunta que você vai tentar responder ao longo de seu discurso. Vale lembrar: não existe resposta certa ou errada para essa pergunta; você pode concordar ou não com a doação de esmolas. Não se esqueça também de que os temas de redação sempre envolvem questões controversas, ou seja, propostas ou questões sobre as quais há divergência de opiniões.

Procure levantar hipóteses para responder essa pergunta: se você é a favor da esmola, diga que esse é um ato de solidariedade necessário diante de uma sociedade tão desigual. Se você for contra a esmola, defenda que a esmola provoca acomodação e facilita a exploração infantil por parte dos próprios pais ou responsáveis. A escolha é sua. Há muitas outras hipóteses envolvidas nesse problema. A hipótese que você escolher será sua tese.

Adotada a tese, é hora de argumentar a favor dela, defender seu ponto de vista para concluir seu raciocínio. Como afirma o mesmo professor Antônio Suarez Abreu, em seu livro A arte de argumentar (leitura que recomendamos fortemente), “seja em família, no trabalho, no esporte ou na política, saber argumentar é, em primeiro lugar, saber integrar-se ao universo do outro. É também obter aquilo que queremos, mas de modo cooperativo e construtivo, traduzindo nossa verdade dentro da verdade do outro”.

Portanto, ao argumentar a favor de sua tese, é fundamental respeitar a opinião divergente e considerá-la em seu texto para refutá-la em função de sua opinião. Essa refutação fortalece sua tese, mas sempre conteste opiniões diferentes da sua de modo ético e solidário, sem desrespeitos nem violência, já que argumentar é discutir ideias, semear conhecimentos, estabelecer relações, e não provocar discórdias nem conseguir o que se quer com o uso da força.

 

RTRenato Tresolavy

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