29 Dezembro 2017

BEBEDOURO é o nome daquele aparelho com água encanada com um pequeno jato. É, portanto, o lugar onde se bebe água.

O sufixo DOURO tem origem latina e costuma indicar um lugar onde se realiza uma determinada ação. Outros exemplos seriam COMEDOURO (lugar ou recipiente onde os animais se alimentam), SUMIDOURO (abertura por onde algo se escoa ou some), MIRADOURO (o mesmo que mirante; lugar de onde se observa algo) e MATADOURO (lugar onde gados são abatidos).

Outro sufixo que também tem ideia de lugar é TÓRIO, como sanatório, escritório, refeitório, consultório etc.

A palavra BEBEDOR indica aquele que bebe. O sufixo DOR costuma expressar o agente de uma ação, como em narrador, mobilizador, lavrador, mediador, pacificador, coordenador, provedor, caçador, predador, vencedor, consumidor, traidor, orientador, morador etc.

No entanto, a troca de sufixos é comum na língua popular. Por exemplo: o ESCORREGADOR não é a pessoa que escorrega e sim o lugar onde se escorrega. O CORREDOR pode não ser somente a pessoa que corre, mas também um lugar estreito em casas e prédios. Ou seja, nem sempre a fronteira semântica é tão rígida assim.

BEBEDOURO é o nome daquele aparelho com água encanada com um pequeno jato. É, portanto, o lugar onde se bebe água. O sufixo DOURO tem origem latina e costuma indicar um lugar onde se realiza uma determinada ação. Outros exemplos seriam COMEDOURO (lugar ou recipiente onde os animais se alimentam), SUMIDOURO (abertura por onde algo […]

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Nossa missão é combater o preconceito linguístico e dar dicas sobre o padrão da língua, que todos têm o direito de conhecer.



24 Dezembro 2017

Sonho: conhecer uma língua estrangeira (estranha) e, no entanto, não compreendê-la: nela perceber a diferença sem que essa diferença seja jamais recuperada pela sociabilidade superficial da linguagem, da comunicação ou da vulgaridade; conhecer, refratadas positivamente numa nova língua, as impossibilidades da nossa; aprender a sistemática do inconcebível; desfazer nosso “real” pelo contato com outros recortes, outras sintaxes; descobrir posições inusitadas do sujeito na enunciação, deslocar sua topologia; numa palavra, descer ao intraduzível, provar sua convulsão sem jamais amortecê-la, até que se abale todo o Ocidente em nós e que vacilem os direitos da língua paterna, aquela que nos vem do pai e que nos torna também pais e proprietários de uma cultura que a história precisamente transforma em “natureza”. Sabemos que os principais conceitos da filosofia aristotélica foram de certa forma forjados pelas principais articulações da língua grega. Como seria benfazejo se, inversamente, nos transportássemos para uma visão das diferenças irredutíveis que uma língua muito longínqua pode nos sugerir, por lampejos. […]

Roland Barthes. O império dos signos. Tradução de Lúcia Leal Ferreira.

Sonho: conhecer uma língua estrangeira (estranha) e, no entanto, não compreendê-la: nela perceber a diferença sem que essa diferença seja jamais recuperada pela sociabilidade superficial da linguagem, da comunicação ou da vulgaridade; conhecer, refratadas positivamente numa nova língua, as impossibilidades da nossa; aprender a sistemática do inconcebível; desfazer nosso “real” pelo contato com outros recortes, […]

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3 Dezembro 2017

Um coelho viu 6 elefantes enquanto se dirigia ao rio. Cada elefante viu 2 macacos indo para o rio. Cada macaco segurava 1 pássaro em suas mãos. Quantos animais foram para o rio?

a) 31
b) 25
c) 11
d) 7
e) 5
f) impossível responder

 

Vamos lá? Vou analisar frase por frase.

UM COELHO VIU 6 ELEFANTES ENQUANTO SE DIRIGIA AO RIO.
Sabemos que o coelho estava indo ao rio. Se os elefantes vistos estavam parados ou se também iam ao rio é uma incógnita.

CADA ELEFANTE VIU 2 MACACOS INDO PARA O RIO.
Essa é uma frase totalmente ambígua. Não é possível sabermos se cada elefante viu os mesmos 2 macacos ou se cada elefante viu 2 macacos diferentes. Como não sabemos se os elefantes foram todos juntos, existem várias outras possibilidades (por exemplo, se tiverem ido 2 grupos com 3 elefantes, e cada grupo tiver visto 2 macacos diferentes, é possível que houvesse 4 macacos).
Outra parte ambígua é o “indo para o rio”. Quem estava indo para o rio era o elefante ou os macacos? Não é possível saber. Para desfazer a ambiguidade, seria preciso dizer algo como “Cada elefante viu 2 macacos enquanto ia para o rio” ou “Cada elefante viu 2 macacos que estavam indo para o rio”. Há outras possibilidades se deslocarmos a expressão “indo para o rio”.
Algumas pessoas disseram “considerando que cada elefante viu os mesmos 2 macacos, são só 2 macacos”. Pergunto: Você está considerando isso com base em quê? O texto não dá nenhum indício de que essa informação procede, e nosso conhecimento de mundo também não contribui para nada. Qualquer conclusão sobre esse trecho é precipitada, pois NÃO HÁ ELEMENTOS QUE SUSTENTEM NENHUMA CONCLUSÃO.

Como a frase seguinte depende de sabermos quantos macacos havia, e ainda se os macacos estavam ou não indo para o rio, não há necessidade de completarmos essa análise, uma vez que estamos diante de uma impossibilidade de resposta.

A quem sentiu que esse desafio foi uma pegadinha, destaco que a resposta certa estava na imagem (F).

O que podemos tirar dessa reflexão?
Muitas vezes, ao lermos algum texto, tiramos conclusões precipitadas baseadas em coisas que não estavam ditas e/ou não poderiam ser inferidas.
Outra coisa: na internet, um ambiente em que a escrita muitas vezes acompanha a leitura, muitos têm pressa em comentar mesmo antes de ter refletido suficientemente sobre o que leram.
A leitura não é uma atividade simples, que se faz “de primeira”: ela requer repetição, reanálise, questionamento e até mesmo diálogo com outras pessoas para que possamos testar se nossas hipóteses fazem sentido.

Vou completar a discussão gravando alguns stories no Instagram, ok? Daqui a pouquinho eles ficam disponíveis.

Espero que tenham gostado de participar do desafio!
Até a próxima!

Um coelho viu 6 elefantes enquanto se dirigia ao rio. Cada elefante viu 2 macacos indo para o rio. Cada macaco segurava 1 pássaro em suas mãos. Quantos animais foram para o rio? a) 31 b) 25 c) 11 d) 7 e) 5 f) impossível responder   Vamos lá? Vou analisar frase por frase. UM […]

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Carol é mestre em Educação, especialista em Tradução e graduada em Letras (inglês e português). É coautora da coleção Circles pela editora FTD. Também trabalha com edição de livros didáticos de língua portuguesa.



3 Dezembro 2017

Qual é o sentido da vida, do universo e tudo mais? E, afinal, quem sou eu? Bom, respondendo à primeira pergunta, 42. Já a segunda, essa é um pouco mais difícil, embora seja simples. (Mas como assim?) Assim: você é você, ou seja, você é quem todas as outras pessoas não são.

Uma questão muito complexa é a da tentativa de definir a identidade das pessoas. Por isso, aqui, não é pretendido que se disseque completamente esse conceito, nem os seus similares: personalidade, caráter e ego. Tão-somente se definirá a identidade para fins explicativos, a saber: a identidade é a soma das características naturais com as experiências pelas quais o indivíduo passa durante a vida. Isto é, cada pessoa tem uma identidade própria, uma vez que seu código genético é único e, portanto, suas características naturais são únicas também. Mas então como explicar as identidades ou personalidades dos irmãos-gêmeos, que possuem o mesmo DNA? Aí tomamos a segunda perspectiva: o meio ambiente, as pessoas com as quais convivem, a forma como eles lidam com as coisas que acontecem, em outras palavras, suas experiências pessoais. Em se tratando de Arte – especificamente a Literatura –, é possível entender essa identidade (ou personalidade, de persona) como a biografia do artista, ou autor. Assim, entendemos que a pessoa do autor, formada por traços inatos e por outros – construídos através da vivência – é única e não pode ser transferida a ninguém.

Quando lemos um texto literário, algumas pessoas se destacam entre as palavras; como as personagens: protagonistas, antagonistas e coadjuvantes, e o narrador: a voz que conta a história e que pode ou não ser uma personagem dela. Interessante é perceber que essas pessoas, invariavelmente, são fictícias! Até mesmo em romances históricos, os quais narram acontecimentos reais, as personagens representadas não são definitivamente reais (embora sejam bastante verossímeis, isto é, próximas da realidade). O que ocorre é que, no ato da escrita, o autor é responsável por definir o que chamamos de pacto de leitura: a criação de um mundo diferente do que existe, o qual possui regras próprias e é povoado por seres próprios. O leitor, do seu lado, aceita as verdades contidas na história como reflexos da mente criativa e criadora do autor, não as confundindo com a chamada realidade. Desta forma, ainda que a história seja baseada em eventos e pessoas reais, jamais, em hipótese alguma, podemos considerá-la verdadeira.

A ficção tem, sim, laços com a realidade, como a já citada verossimilhança, que se define como a lógica da narrativa ou coerência; contudo, é de suma importância que saibamos separar a literatura e o mundo real. Então, compreendendo que o narrador é uma pessoa (fictícia) e que o autor também é uma pessoa (física), onde encaixamos a tal identidade? Simples: em ambos. Mas isso desde que os distingamos entre si, já que eles não dividem o mesmo mundo, portanto, não podem ter tido as mesmas experiências. Em outras palavras, é impossível que o narrador e o autor sejam a mesma pessoa, com a mesma identidade e personalidade, embora – novamente – pode ser que eles dividam alguns traços em comum, assim como os próprios mundos fictício e real dividem.

É notável, pois, o fato de que as variações que uma pessoa física sofre em sua identidade, durante a existência, são poucas se comparadas às dos narradores. Se definirmos a identidade como já fizemos, o indivíduo vai se modificar ou se consolidar a partir das experiências que tem, enquanto o narrador, por outro lado, não depende dessas experiências para ser criado ou transformado; ele depende única e exclusivamente da imaginação do autor. Um escritor, assim, terá sua identidade construída através da vida, podendo, durante essa construção, criar inúmeras outras pessoas muito mais diferentes entre si do que ele próprio e seus eus passados.

Essa distinção, ou diferenciação, entre as pessoas surgidas de uma única pessoa colabora, portanto, para a certeza de não se poder fundir – e confundir – o autor e o narrador (por extensão, narradores). Desta forma, fica mais fácil olhar para o texto e não enxergar o autor, pelo menos não completamente.

Na poesia, por outro lado, não existe – via de regra – algo que possamos chamar de narrador, uma vez que os poemas tendem a não narrar histórias, mas sim construir imagens simbólicas com as quais o leitor possa vir a se “encantar”, isto é, identificar-se e se emocionar, bem como permitir que a poesia floresça em seu interior. Para tanto, o autor se vestirá novamente de outra pessoa; dessa vez, não um narrador, mas uma voz mais ligada aos sentimentos e à força da palavra: o eu-lírico.

Porquanto o escritor é capaz de criar diversos narradores para suas diferentes histórias, o poeta deve fazê-lo muito mais vezes – com os eus-líricos –, tendo em vista a extensão menor dos textos desse gênero. Em outras palavras, no tempo em que um escritor de prosa gera uma dúzia de trabalhos, um poeta é capaz de produzir centenas de textos. Somando-se a isso o fato de a poesia ser, por definição, voltada para as emoções humanas, temos, então, a facilidade em confundir o poeta com o seu eu-lírico. Afinal, deve ser muito difícil, para o autor, desenvolver vozes diferentes da sua a fim de falar sobre sentimentos humanos, ainda mais em um grande número de textos, não é mesmo? Imagine o esforço investido na escrita de um poema que fala sobre a morte da pessoa amada; e se a pessoa amada do autor não morreu; e se o autor nem sequer ama alguém; e se o autor nunca perdeu ninguém querido… Como ser honesto e sincero no poema, visando conectar-se com o leitor, falando sobre o que desconhecemos? Difícil, mas simples: evocamos uma pessoa que saiba daquele assunto. Uma pessoa fictícia, mas intimamente ligada às coisas do mundo real. Uma pessoa imaginária, mas que sente e sofre e ama e morre.

De forma criativa, porém partindo de traços humanos os quais podem ser facilmente reconhecidos no mundo real, o poeta desenvolve seu eu-lírico quase organicamente, porque é da própria natureza de sua atividade; um movimento, na maioria das vezes, pouco consciente e até automático. Quando se escolhe o tema do poema (ou quando a musa aparece), o autor, ainda que não sinta efetivamente aquilo sobre o que escreve, naquele momento, sabe o que deveria sentir – porque é humano, porque sente, sofre, ama, etc. Dessa forma, o eu-lírico, ao tratar de assuntos sobre os quais o poeta tem pouco conhecimento, não está mentindo ou fingindo para o leitor; principalmente porque, de novo, eles não são a mesma pessoa nem têm a obrigação de dividir os mesmos sentimentos. A voz lírica sente porque o poeta sabe o que deveria sentir. É estranho, mas não paradoxal, já que a emoção e a razão não são opostas.

Agora, se a pessoa física é diferente da pessoa literária (do narrador ou do eu-lírico), se uma é o Outro da outra, como é possível conhecer tão bem os poetas a partir, somente, das suas obras…? Bom, não é. O que pode vir a acontecer é o fenômeno que humildemente batizo de “lirismo translúcido”, o qual acaba sendo bem simples, apesar do nome aparentemente rebuscado. Se concordarmos que a voz que fala na poesia não é a voz do autor, mas de uma pessoa criada, e que as duas pessoas são diferentes, o poeta pode – por querer ou sem querer – deixar sua identidade aparecer naquilo que o Outro diz. Isto é, o eu-lírico revela a personalidade do seu criador.

É muito importante ressaltar, contudo, que essa poesia não deve sobrepujar a ideia das diferentes pessoas na literatura. Assim, ainda que seja possível reconhecer a identidade de um poeta (quer dizer, identificá-lo), não devemos esquecer que, no poema, quem nos fala é o eu-lírico. Eles podem ser mais ou menos parecidos, mas, ainda assim, tratam-se de duas pessoas de mundos diferentes e com personalidades distintas.

Quando um autor “aparece” no texto, portanto, ele está utilizando seus próprios conhecimentos e sentimentos através do eu-lírico. Apesar de continuar não sendo o poeta quem fala no poema, ele pode transmitir suas emoções para que o eu-lírico seja capaz de escrever sobre estas; da mesma forma como o eu-lírico pode escrever sobre emoções que o poeta desconhece. Assim, é importante compreender que, mesmo no poema mais íntimo e autobiográfico, o autor não está falando. Dessa forma, quando tentarmos interpretar um texto, vê-lo-emos enquanto objeto fechado e completo em si: com uma voz que diz e com algo que é dito; sem a necessidade de levar em conta autor, cidade onde viveu, casamentos, filhos, situação política etc. Mas isso sem deixar totalmente de lado o lirismo translúcido, o qual compreende a existência da identidade do poeta – mais ou menos explicitada. Configura um erro de leitura, portanto, julgar-se conhecedor íntimo de um autor tão-somente pelo conhecimento que se tem de sua obra.

Não é raro acontecer de partirem do leitor alguns pré-conceitos sobre o poeta, os quais refletem o que se espera da pessoa física a partir do que se conhece da pessoa literária. Por vezes, esses conceitos são supostamente positivos, mas também podem ser negativos, isto é, julgamos e definimos algumas qualidades encontradas no eu-lírico como parte do poeta. O que acontece, pois, é a inevitável desilusão: o poeta é uma pessoa comum, com falhas e acertos – diferentemente do eu-lírico, criado a partir da imaginação, que pode apresentar apenas qualidades positivas (por que não?). Assim, o leitor acaba cobrando, do autor, algumas características que são intrínsecas à sua criação e as quais podem nem existir – com efeito – na pessoa autora, na pessoa real.

 

*Léo é escritor, poeta e professor de escrita criativa.

Qual é o sentido da vida, do universo e tudo mais? E, afinal, quem sou eu? Bom, respondendo à primeira pergunta, 42. Já a segunda, essa é um pouco mais difícil, embora seja simples. (Mas como assim?) Assim: você é você, ou seja, você é quem todas as outras pessoas não são. Uma questão muito […]

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Léo Ottesen é escritor, poeta e professor de escrita criativa.