Português é legal




13 Maio 2018

A resposta é simples: tanto faz. Fim de semana e final de semana são expressões consideradas sinônimas em português e o falante pode escolher usar aquela que preferir. No entanto, em alguns sites é possível encontrar a informação de que somente a primeira está correta. Por quê?

1) Algumas pessoas consideram que “fim de semana” é uma expressão consagrada, principalmente porque no passado já foi escrita com hífen (o que não existe mais). Na verdade, hoje em dia o “final de semana” é tão usado pelos falantes quanto o “fim”, uma das razões para que tanta gente tenha dúvidas acerca de qual seria a expressão “correta”. Não há motivos para eleger apenas uma, sendo que ambas passam a mesma ideia.

2) Há quem considere que a palavra “fim” é um substantivo (e que se oporia a “início da semana”) e que “final” é somente um adjetivo (e que se oporia a “inicial da semana”). Trata-se de um preciosismo que não se sustenta, já que o uso de “final” em função de substantivo também é comum (“o final do filme me surpreendeu”; “o final do livro é excelente”; “no final, restou a amizade”). Há também o uso como substantivo feminino (“Estou ansioso pela final do campeonato”). Muitas palavras em português podem tanto ter função de adjetivo como de substantivo (“O professor é jovem”/”O jovem está dando aulas”; “O sábio menino já nos ensinava grandes lições”/”O sábio era um homem vivido”), o que invalida o argumento de que “final” não pode ter mais de uma função. Qualquer dicionário de português pode reforçar essa informação.

3) Há ainda quem defenda que “fim de semana” inclui o período entre a noite da sexta-feira e a noite de domingo e que o “final de semana” vai até a noite de sábado. O argumento é que, para eles, “final” tem sentido de “última parte” (como em “gosto de passear no final da tarde”) e não de algo que já se acabou. Considero esse um malabarismo “lógico” distante da realidade, mas há quem goste da ideia.

 

Podemos dizer que as afirmações categóricas sobre a língua portuguesa costumam tender ao erro, já que a língua é bem mais flexível do que alguns gostam de supor. Em gramáticas e dicionários, é possível verificar essa flexibilidade. Já em manuais de estilo, sobretudo aqueles de grandes jornais, somente uma forma é eleita, pois os veículos de comunicação buscam padronizar e homogeneizar os textos que publicam. Não se trata de correção, mas de uniformização.

Sabendo que o “final de semana” pode carregar algum estigma em contextos avaliativos, eu sugeriria a preferência pelo “fim”.

Nos outros contextos, a escolha é livre. Vale também para fim/final de ano; fim/final de um show; fim/sinal do mês e assim por diante.

A resposta é simples: tanto faz. Fim de semana e final de semana são expressões consideradas sinônimas em português e o falante pode escolher usar aquela que preferir. No entanto, em alguns sites é possível encontrar a informação de que somente a primeira está correta. Por quê? 1) Algumas pessoas consideram que “fim de semana” […]

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12 Maio 2018

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27 Março 2018

“[…]

Pode-se fazer uma foto dizer o que se quiser! Um texto, um filme, um discurso também – basta recortar um pedacinho e colocá-lo, higienicamente, numa bela página. O trecho “extraído” adquire imediatamente uma coloração diferente, às vezes um sentido completamente diferente! Tudo depende do lugar em que se faz o corte. Tudo depende de quem está com a tesoura e com a cola.

Os jornalistas do show business conhecem bem a coisa. Eles pegam uma frase excitante de um artigo e a servem sozinha no título. Mesmo se a matéria é um verdadeiro desastre e se a crítica foi escrita com veneno, há sempre uma frasezinha, um pedaço de frase que pode servir. “RITMO ENDIABRADO! SURPREENDENTE PERFORMANCE DOS ATORES!”… Sedutor! Principalmente se não se informa o que havia em volta: “Brincadeiras idiotas e trocadilhos sem sentido se encadeiam em um ritmo endiabrado. Surpreendente performance dos atores, que tiveram a coragem de encenar todos os dias até o fim essa peça indigesta…” E situações tão grosseiras quanto essa acontecem de fato. Mas há também casos mais sutis. Quando os políticos se citam mutuamente, a coisa acaba sempre em barraco; eles “deformam” o pensamento do outro citando apenas um trechinho. O outro berra ‑ claro, um pensamento deformado faz supermal. Pode causar prejuízos, pode dar um monte de problema.

Mesmo quando o recorte parece ser honesto, mesmo quando é feito com a melhor das intenções (há sempre uma intenção!), uma “passagem” de um livro raramente dá uma ideia correta do conjunto de seu conteúdo. Na hora em que a gente vai ler o livro inteiro, fica surpreso ao reler o tal trecho; no virar das páginas a gente tem dificuldade em reconhecê-lo. O “trecho escolhido” tinha adquirido uma espécie de vida independente, então pena para se reintegrar na meada da história. O tom, o espírito não é mais o mesmo; uma vez desambientado de seu território, o trecho adquire subitamente uma outra cor, uma luminosidade diferente.

Um exemplo famoso: várias gerações de alunos só conheceram da obra de Jules Vallès[LLF1]  a passagem transcrita a seguir, que foi um hit dos livros didáticos.

Tenho respeito pelo pão.

Um dia, joguei uma migalha, meu pai foi apanhá-la. Nem me falou asperamente como faz sempre.

“Meu filho”, disse ele, “não se deve jogar fora o pão; é difícil ganhá-lo. Nós não temos demais para nós, mas, se tivéssemos, deveríamos dá-lo aos pobres. Um dia você talvez não tenha e verá o que ele vale. Lembre-se disso que estou lhe dizendo, meu filho!”.

Nunca me esqueci.

Essa observação, que, pela primeira vez talvez em minha juventude, me foi feita não com cólera, mas com dignidade, penetrou até o fundo da minha alma; desde então, tenho respeito pelo pão. As colheitas foram, para mim, sagradas; jamais esmaguei um ramo ao colher um papoula ou uma centáurea-azul; jamais matei no caule a flor do pão!

Jules Vallès, L’Enfant.

Belo como um sermão! Infelizmente, esse trecho célebre – praticamente o único do tipo em todo o livro – transmite uma imagem adocicada, bem pensante e moralizadora que não tem muito que ver com o autor de L’Enfant (O filho), livro irônico e amargo no qual Jules Vallès faz um acerto de contas com a família e com a sociedade. Ou seja: trata-se de uma imagem falsa.

[…]”

Claude Duneton e Jean-Pierre Pagliano. Anti-manuel de français. Paris: Éditions do Seuil, 1978. p. 15-16.

 [LLF1]

Jules Vallès (1832- 1885) foi um jornalista, escritor e político francês. Fundador do jornal Le Cri du Peuple (O Grito do Povo) esteve entre os representantes eleitos da Comuna de Paris em 1871. Condenado à morte, teve que se exilar em Londres, de 1871 a 1880. (Baseado em: Wikipédia)

 

“[…] Pode-se fazer uma foto dizer o que se quiser! Um texto, um filme, um discurso também – basta recortar um pedacinho e colocá-lo, higienicamente, numa bela página. O trecho “extraído” adquire imediatamente uma coloração diferente, às vezes um sentido completamente diferente! Tudo depende do lugar em que se faz o corte. Tudo depende de […]

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26 Março 2018

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