26 Junho 2018

Conhecem aquela história sobre a gente não saber se livrar da água suja da banheira do bebê sem jogar o bebê junto?

Quando tentamos escapar do gerúndio com medo de estarmos “cometendo” gerundismo, estamos fazendo exatamente isso: jogando fora o bebê.

O gerundismo foi vítima das fake news quando a gente nem sabia que isso existia. Espalharam por aí algumas grandes mentiras sobre ele, como a de que gerundismo significa excesso de gerúndio. Há vários textos na internet em que o autor comenta que gostaria de estar estudando mais, vivendo mais, ganhando mais, dormindo mais, e de repente interrompe as ideias para confessar a culpa: “quanto gerundismo!”.

Talvez esse medo de ser contaminado pela epidemia do gerundismo não existisse se tivessem explicado direitinho que gerundismo é outra coisa e que o gerúndio – pasmem – é benigno.

Vejam este diálogo:

— Posso te ligar hoje às 15h?

— Nesse horário vou estar fazendo prova. Pode ser às 16h?

 

“Vou estar fazendo” é o jeito informal de dizer “estarei fazendo”. Ambos são igualmente corretos, estruturas perfeitas (e canônicas) da língua portuguesa. Nesse caso, a pessoa deixou claro que no horário mencionado a ação de fazer prova estará em curso, portanto o uso do gerúndio está impecável!

O gerundismo acontece quando o atendente diz que “vai estar procurando” sua ficha, em vez de simplesmente dizer que vai procurar. É essa estrutura (verbo ir conjugado + verbo estar no infinitivo + verbo no gerúndio) que caracteriza o que vem sendo chamado de gerundismo, mas só em alguns contextos. Como observou o professor Sirio Possenti, o uso do gerúndio nesse caso cria a impressão de que aquela ação, que deveria ser pontual, vai se estender por algum tempo. Por isso é tão pouco indicado o uso do gerundismo no telemarketing: porque se cria a sensação de que o falante está fazendo corpo mole e arrastando a resolução do problema com uma preguiça enorme. Um “vou estar resolvendo” em vez de “vou resolver” parece indicar que a pessoa vai estar procrastinando e vai estar rastejando e vai estar empurrando a tarefa lá pra frente.

Claro que indicar uma ação duradoura no futuro pode ser uma das intenções do falante (“Vou perder o show amanhã porque ESTAREI DANDO AULA no mesmo horário”). Essa estrutura, portanto, é gramaticalmente correta, mas pode gerar um EFEITO DE SENTIDO indesejado dependendo do contexto em que é empregada.

Um cliente quer ser atendido com agilidade, e não “estar sendo atendido”. Quer que você envie logo os produtos, e não que “vá estar enviando”. Espera que você procure logo o registro das chamadas anteriores, e não que “vá estar procurando”. Ao ouvir que você “vai estar solucionando”, o cliente já deduz que a solução não será instantânea. Mas não há problemas dizermos frases como “Prefiro fazer a reunião esta semana porque VOU ESTAR VIAJANDO no próximo mês” (ou “estarei viajando”). Se nos parece possível dizer tanto “VOU FAZER um curso” como “FAREI um curso”, por que implicar com “vou estar fazendo um curso”? É claro que “farei” soa mais incisivo e mais formal que “vou fazer”, mas, repito, gramaticalmente, as duas construções são possíveis. O português, assim como outras línguas, tem duas formas de indicar o futuro. Vou comparar com o francês:

Forma analítica: Eu vou fazer | Je vais faire

Forma sintética: Eu farei | Je ferai

Para o professor Sirio Possenti, dizer que “vai estar fazendo”, mesmo que denote certa falta de compromisso, também expressa uma intenção de ser gentil e não grosseiro. Não parece mais delicado rejeitar um convite afirmando que “não vai poder estar aceitando”?

Ou seja: não é verdade que o gerundismo é errado, como não é verdade que ele é desnecessário. Se ele confere novas nuances de sentido ao que está sendo dito, ele tem uma função real.

Por fim, também não é verdade que gerundismo é excesso de gerúndio. Portanto, pode continuar sonhando, respirando, reclamando, estudando, enriquecendo, viajando, fazendo planos e vivendo tranquilamente com suas ações duradouras, que, linguisticamente, não há nada de errado com isso. Aliás, se houvesse, você deixaria de gerundiar? Eu, não.

 

Sugestão de leitura mais completa sobre o assunto: http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao04/04_006.php

Conhecem aquela história sobre a gente não saber se livrar da água suja da banheira do bebê sem jogar o bebê junto?

Quando tentamos escapar do gerúndio com medo de estarmos “cometendo” gerundismo, estamos fazendo exatamente isso: jogando fora o bebê.

O gerundismo foi vítima das fake news quando a gente nem sabia que isso existia. Espalharam por aí algumas grandes mentiras sobre ele, como a de que gerundismo significa excesso de gerúndio. Há vários textos na internet em que o autor comenta que gostaria de estar estudando mais, vivendo mais, ganhando mais, dormindo mais, e de repente interrompe as ideias para confessar a culpa: “quanto gerundismo!”.

Talvez esse medo de ser contaminado pela epidemia do gerundismo não existisse se tivessem explicado direitinho que gerundismo é outra coisa e que o gerúndio – pasmem – é benigno.

Vejam este diálogo:

— Posso te ligar hoje às 15h?

— Nesse horário vou estar fazendo prova. Pode ser às 16h?

 

“Vou estar fazendo” é o jeito informal de dizer “estarei fazendo”. Ambos são igualmente corretos, estruturas perfeitas (e canônicas) da língua portuguesa. Nesse caso, a pessoa deixou claro que no horário mencionado a ação de fazer prova estará em curso, portanto o uso do gerúndio está impecável!

O gerundismo acontece quando o atendente diz que “vai estar procurando” sua ficha, em vez de simplesmente dizer que vai procurar. É essa estrutura (verbo ir conjugado + verbo estar no infinitivo + verbo no gerúndio) que caracteriza o que vem sendo chamado de gerundismo, mas só em alguns contextos. Como observou o professor Sirio Possenti, o uso do gerúndio nesse caso cria a impressão de que aquela ação, que deveria ser pontual, vai se estender por algum tempo. Por isso é tão pouco indicado o uso do gerundismo no telemarketing: porque se cria a sensação de que o falante está fazendo corpo mole e arrastando a resolução do problema com uma preguiça enorme. Um “vou estar resolvendo” em vez de “vou resolver” parece indicar que a pessoa vai estar procrastinando e vai estar rastejando e vai estar empurrando a tarefa lá pra frente.

Claro que indicar uma ação duradoura no futuro pode ser uma das intenções do falante (“Vou perder o show amanhã porque ESTAREI DANDO AULA no mesmo horário”). Essa estrutura, portanto, é gramaticalmente correta, mas pode gerar um EFEITO DE SENTIDO indesejado dependendo do contexto em que é empregada.

Um cliente quer ser atendido com agilidade, e não “estar sendo atendido”. Quer que você envie logo os produtos, e não que “vá estar enviando”. Espera que você procure logo o registro das chamadas anteriores, e não que “vá estar procurando”. Ao ouvir que você “vai estar solucionando”, o cliente já deduz que a solução não será instantânea. Mas não há problemas dizermos frases como “Prefiro fazer a reunião esta semana porque VOU ESTAR VIAJANDO no próximo mês” (ou “estarei viajando”). Se nos parece possível dizer tanto “VOU FAZER um curso” como “FAREI um curso”, por que implicar com “vou estar fazendo um curso”? É claro que “farei” soa mais incisivo e mais formal que “vou fazer”, mas, repito, gramaticalmente, as duas construções são possíveis. O português, assim como outras línguas, tem duas formas de indicar o futuro. Vou comparar com o francês:

Forma analítica: Eu vou fazer | Je vais faire

Forma sintética: Eu farei | Je ferai

Para o professor Sirio Possenti, dizer que “vai estar fazendo”, mesmo que denote certa falta de compromisso, também expressa uma intenção de ser gentil e não grosseiro. Não parece mais delicado rejeitar um convite afirmando que “não vai poder estar aceitando”?

Ou seja: não é verdade que o gerundismo é errado, como não é verdade que ele é desnecessário. Se ele confere novas nuances de sentido ao que está sendo dito, ele tem uma função real.

Por fim, também não é verdade que gerundismo é excesso de gerúndio. Portanto, pode continuar sonhando, respirando, reclamando, estudando, enriquecendo, viajando, fazendo planos e vivendo tranquilamente com suas ações duradouras, que, linguisticamente, não há nada de errado com isso. Aliás, se houvesse, você deixaria de gerundiar? Eu, não.

 

Sugestão de leitura mais completa sobre o assunto: http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao04/04_006.php

escrito por

Carol é mestre em Educação, especialista em Tradução e graduada em Letras (inglês e português). É coautora da coleção Circles pela editora FTD. Também trabalha com edição de livros didáticos de língua portuguesa.