1 Outubro 2015

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No Brasil, parece consensual a ideia de que uma educação de qualidade deve ter início logo nos primeiros anos de escolarização. Entretanto, é rara a percepção de que mudar as bases da educação requer, como princípio, que se estabeleça o foco no ensino universitário, uma vez que é o ambiente acadêmico o local em que ocorre a formação de professores, seja na Pedagogia ou nas licenciaturas. Apesar da constatação acerca da necessidade de aumentar investimentos e melhorar a qualidade do ensino nos cursos de ensino superior, o que as pesquisas revelam é um expressivo crescimento de universidades com ensino de baixa qualidade no Brasil.

De acordo com o Indicador de Alfabetismo Funcional divulgado pelo Instituto Paulo Montenegro (IPM) e pela ONG Ação Educativa, há, entre os estudantes do ensino superior, uma parcela de 38% que não tem domínio de habilidades básicas de leitura e escrita. Embora o acesso ao estudo tenha sido ampliado (dados do IBGE mostram, por exemplo, que, entre 2000 e 2009, aproximadamente 30 milhões de estudantes ingressaram nos ensinos médio e superior), o crescimento acelerado acarretou também uma queda significativa na qualidade do ensino, o que leva especialistas a colocar em xeque a ideia de que o ensino está sendo, de fato, democratizado. Ainda que alunos de diferentes classes sociais tenham passado a ter acesso a ele, a conclusão dos estudos nem sempre revela um avanço educacional verdadeiro.

Quais são as implicações de a educação ter sido transformada em negócio? Mais que isso: por que o ensino de baixa qualidade tem sido considerado uma demanda no Brasil? Alguns fatores ajudaram a aumentar a demanda por vagas universitárias, como o crescimento econômico, que gerou a necessidade de maior qualificação da mão de obra, e o aumento do número de vagas no ensino médio, por exemplo. A ampliação acelerada do setor privado nas últimas décadas, portanto, foi impulsionada pelo fato de consistir em uma maneira de atender a essa demanda de massa, absorvendo estudantes que o Estado não conseguia comportar.

Nas últimas décadas, a preocupação educativa passou a dar lugar à lógica de mercado, o que aconteceu sobretudo depois um decreto de 1997 (posteriormente revogado) permitindo finalidade lucrativa para entidades educacionais particulares. Segundo a professora Helena Sampaio, também pesquisadora do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP, esse texto “fomentou e legitimou a mercantilização” do ensino. Com a educação transformada em mercadoria, tornou-se comum observar situações como a de regiões em que a oferta de vagas é maior que o número de concluintes do ensino médio, o que leva as universidades à busca por estratégias que tornem seus cursos cada vez mais atraentes. Os alunos, agora transformados em “clientes estudantis”, passam a ser vistos como potenciais consumidores e se tornam o alvo de mensagens que propagandeiam como imprescindíveis cursos que, há pouco, nem mesmo existiam. É possível considerarmos que o quadro de mercantilização da educação se deva a uma mudança de valores na sociedade, uma vez que se passou a difundir a ideia acerca da importância (ou indispensabilidade) da educação formal.

[continuação]

Leia o texto completo aqui: http://obviousmag.org/mar_me_quer/2015/09/a-educacao-como-negocio.html#ixzz3nK0Gna1T
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carol-pereira-portugueselegal Carol tem graduação em Letras, autora e editora de livros didáticos, tradutora de inglês e mestre em Educação. carolinajesper@gmail.com | Outros textos publicados

No Brasil, parece consensual a ideia de que uma educação de qualidade deve ter início logo nos primeiros anos de escolarização. Entretanto, é rara a percepção de que mudar as bases da educação requer, como princípio, que se estabeleça o foco no ensino universitário, uma vez que é o ambiente acadêmico o local em que […]

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Nossa missão é combater o preconceito linguístico e dar dicas sobre o padrão da língua, que todos têm o direito de conhecer.



30 Abril 2015

O senso comum costuma acreditar que o melhor professor de uma língua estrangeira é o nativo, aquele que cresceu falando o idioma e que, portanto, deve ter maior domínio sobre seu vocabulário e estruturas sintáticas. Para quem se encaixa nesse perfil, o argumento funciona como uma jogada de marketing implacável: estampar os dizeres “professor nativo” em cartões de visita é uma ótima estratégia para valorizar o passe. Para os alunos, por outro lado, a informação ajuda a estimular investimentos financeiros: não vale a pena gastar um pouco mais e aprender um idioma com alguém que sempre fez uso dele sem esforços? Claro que sim! (cof cof)

A maneira mais fácil de contestar esse argumento é perguntar aos nossos amigos brasileiros se se sentem aptos a lecionar o português, seja para outros brasileiros ou para um aluno estrangeiro. Somos, todos nós, falantes fluentes e proficientes do português brasileiro, conhecedores de um vocabulário vasto e de todas as estruturas necessárias para nos expressar, seja lá qual for a variante do português que empregamos. Poucos de nós, porém, têm o conhecimento necessário da língua para ensiná-la. O que justifica, então, a falsa ideia de um professor estrangeiro é tudo o que um aluno pode querer?

Suponho que a primeira resposta esteja relacionada à mania dos brasileiros de achar que não sabem o português e que as pessoas de países supostamente mais desenvolvidos dominam as estruturas e nomenclaturas ensinadas em ambiente escolar. Ao contrário do que pensamos, o que acontece com os brasileiros é o que acontece com qualquer ser humano de qualquer lugar do planeta: a língua que usamos no dia a dia não corresponde à língua registrada nas gramáticas. No mundo todo, todos cometem desvios e nem todos conhecem a língua padrão. E mais: não há nada de errado nisso. A única conclusão a se depreender daí é que ter nascido na Inglaterra, na França ou no Canadá, por exemplo, não faz de ninguém um professor por excelência. O mesmo acontece na área de tradução: não é por que alguém morou por anos em outro país que se transformou em um tradutor habilitado daquele idioma! Ensinar, traduzir, revisar, tudo isso requer muito estudo.

A segunda resposta que eu daria pra pergunta “Por que se sonha com professores estrangeiros?” pode ser traduzida na fala de quem diz querer aprender “sem sotaque”. Imagino um gringo comemorando o fato de ter encontrado um professor brasileiro, crendo que poderá aprender o português sem sotaque. Não é só um estrangeiro falando outro idioma que tem sotaque; todo mundo tem, falando a língua que for. Portanto, além do inevitável sotaque que já acrescentaremos à língua que formos aprender, o sotaque característico da região de onde vem nosso suposto “nativo sem sotaque” estará presente. Algum problema nisso? Nenhum.

Também é possível pensar, não sem certa dose de preconceito, que pode ser mais chique ter um professor nativo. Sei que provavelmente a minoria das pessoas procuraria um professor nativo por esse motivo, mas já que estamos elencando possibilidades, não custa incluir também esta.

Não pretendo, com essa reflexão, dissuadir ninguém quanto a ter um professor nativo. Quem tem o objetivo de praticar a “conversação” pode se beneficiar imensamente tendo um professor cuja proficiência é inquestionável, por exemplo.

Também existem muitos nativos que se preparam para lecionar e que, como os outros professores, devem ser valorizados. O objetivo deste texto é somente assegurar aos leitores que professores brasileiros podem, sim, lecionar um idioma estrangeiro com excelência, e que professores nativos não são garantia de aulas brilhantes (embora isso possa acontecer). Uma última comparação é que o professor brasileiro, por ter domínio das duas línguas, conhece os pontos de dificuldade que o aprendizado pode apresentar, o que não aconteceria com um professor que não domina o português.

Se você tem um bom professor, portanto, não se lamente pela nacionalidade dele. A gente garante que isso é o de menos.

O senso comum costuma acreditar que o melhor professor de uma língua estrangeira é o nativo, aquele que cresceu falando o idioma e que, portanto, deve ter maior domínio sobre seu vocabulário e estruturas sintáticas. Para quem se encaixa nesse perfil, o argumento funciona como uma jogada de marketing implacável: estampar os dizeres “professor nativo” […]

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18 Abril 2015

 

1) Até o século V, a leitura considerada normal era aquela que se fazia em voz alta. Ler em silêncio era algo visto com estranheza!

2) Na antiga escrita em rolos, não havia espaços separando as palavras, não se usava pontuação e não existiam letras maiúsculas e minúsculas. Como se lia em voz alta, o olho precisava desembaralhar aos poucos aquelas letras, formando palavras.

2) Agostinho, professor de retórica do século IV (que hoje chamamos de Santo Agostinho), se horrorizava ao presenciar alguém lendo em silêncio. Para ele, “o texto escrito era uma conversação, posta no papel para que o parceiro ausente pudesse pronunciar as palavras destinadas a ele”.

3) Desde os tempos das tabuletas sumérias, as palavras escritas destinavam-se a serem pronunciadas em voz alta.

4) Tanto em aramaico como em hebreu, que são as línguas primordiais da Bíblia, o mesmo verbo é usado para o ato de ler e o ato de falar.

5) No século XI, um teólogo estabeleceu regras para a leitura do Corão, entre as quais estava ler alto o suficiente para que o leitor escute, o que afastaria as distrações do mundo externo.

6) O modo como lemos no mundo ocidental (da esquerda para a direita e de cima para baixo) não tem nada de universal e varia de época para época. Hebreu e árabe eram lidos da direita para a esquerda; chinês e japonês eram lidos em colunas, de cima para baixo; alguns escritos da Grécia antiga eram escritos com linhas alternadas em direções opostas.

7) Alguns religiosos temiam a leitura silenciosa e ficaram muito desconfiados quando ela virou moda. Eles achavam que, além de estimular o pecado da preguiça, ela abriria espaço para se sonhar acordado.

8) Na sociedade cristã do começo da Renascença, alguns aristocratas (e, depois do século XIII, os burgueses) achavam que ler e escrever eram ocupações menores, coisa de clérigo pobre. Apesar disso, os ricos eram praticamente os únicos a ter esse privilégio.

9) Na Idade Média, alguns moralistas acreditavam que as meninas deviam ser proibidas de aprender a ler e escrever, a menos que quisessem ser freiras. Eles temiam que elas se envolvessem com a escrita de cartas amorosas!

10) Antigamente, os livros consistiam em uma série de tabuletas mesopotâmicas de cerca de 7,5 cm de largura. Mantidas em uma bolsa ou caixa de couro, essas “páginas” não perdiam sua ordenação.

 

Todas essas curiosidades foram retiradas do livro “Uma história da leitura”, de Alberto Manguel, da editora Companhia das Letras. Em breve, mais informações sobre leitura e escrita aqui!

🙂

 

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Gentilmente revisado por Percival de Carvalho.

 

  1) Até o século V, a leitura considerada normal era aquela que se fazia em voz alta. Ler em silêncio era algo visto com estranheza! 2) Na antiga escrita em rolos, não havia espaços separando as palavras, não se usava pontuação e não existiam letras maiúsculas e minúsculas. Como se lia em voz alta, […]

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11 Março 2015

Por Renato Tresolavy

Existem algumas máximas que resistem ao tempo pela força universal que possuem, por sua capacidade de entender e explicar o mundo e seus eventos e de sintetizar a dinâmica das sociedades e suas transformações. Heráclito de Éfeso (535 a.C.- 475 a.C.), filósofo grego pré-socrático, é autor de uma dessas máximas que sobrevivem ao tempo. Dizia o filósofo que “A única constante é a mudança”. Para Heráclito, o mundo está em constante mudança, e essa mudança constante é uma realidade inevitável, quer a gente queira ou não.

Se voltarmos nosso olhar para o passado, observa­remos essa constante de mudanças através do tem­po, desde as mais antigas eras até hoje. Trazendo nos­so olhar de volta e fixando nossa análise no momento atual, considerando o século XXI em particular, perce­bemos que esse processo de mudança continua permanente, mas o ritmo das mudanças está cada vez mais acelerado. Ciência, tecnologia e as mais diversas áreas do conhe­cimento estão em permanentes transformações. As tecnologias de informação e comunicação, em especial, mudam em velocidade alucinante: cada vez mais pes­soas estão conectadas à internet, consumindo informa­ção e alimentando uma rede de dados que apresen­ta números cada vez mais superlativos. Só em 2012, mais de 51 milhões de páginas de internet foram adicionadas na web.

Não é à toa que hoje em dia falamos em socieda­de da informação e do conhecimento. O mundo con­temporâneo é marcado pela profusão de informações e cada vez mais pessoas conquistam acesso a elas. No entanto, informação não se confunde com conhecimento. No dizer do professor e filósofo Mario Sergio Cortella, “A informação é cumulativa e o conhe­cimento é seletivo.[1]” Nem sempre a informação dispo­nível se transforma em conhecimento efetivo. Um dos papéis da escola é contribuir para que esse processo de transformação se efetive, indicando caminhos, pro­porcionando acesso, orientando ações para que o aluno tenha a informação e seja capaz de selecionar aquela que realmente importa para em seguida transformá-la em conhecimento.

Nesse processo de aquisição de conhecimentos, essencial para lidar com fatos e fenômenos de nos­so exigente cotidiano atual, a escola tem percebido a necessidade cada vez mais urgente de diminuir a dis­tância entre as disciplinas, de quebrar a organização fragmentada e estanque com que elas são apresenta­das hoje, principalmente para atender as necessidades de uma sociedade em constante mudança e estabele­cer uma relação mais produtiva entre o que acontece no interior de seus muros e o que se passa fora deles, ou seja, a realidade pulsante da vida com toda sua complexidade. Afinal, o homem não é um ser isolado do mundo. Uma de suas características mar­cantes é a intercomunicação permanente com todas as esferas sociais, culturais, intelectuais e pessoais dispo­níveis. E é nesse contexto que a questão da Interdisciplinaridade entra com muita força. A interdisciplina­ridade deve ser ferramenta fundamental para atenuar as quebras existentes entre as disciplinas, procurando atender a complexidade dos fenômenos, que não se limitam a um campo único de conhecimento. A interdisciplinaridade torna-se indispensável como possibilidade de experi­ência da totalidade humana e universal. A interdiscipli­naridade na escola recoloca a ideia de integração entre ideias e conceitos como recurso fundamental para a produção de conhecimentos. ­

Para superar sua limitação com relação à organi­zação de currículo e atribuir significado ao processo de aquisição do conhecimento, a escola deve começar a assumir outra maneira de pensar e de fazer educa­ção, considerando as exigências da atual sociedade da informação e do conhecimento e a tendência de um ensino cada vez mais integrador. Essa superação passa por dois princípios importantes: a interdisciplinaridade e também a contextualização dos assuntos que fazem parte dos objetos de conhecimento das várias disciplinas que compõem o currículo escolar.

Contextualizar é articular o ensino com as diversas deman­das sociais que se apresentam na vida cotidiana do aluno. A interdisciplinaridade, por sua vez, tem relação direta com o ensino que promove a integração de disci­plinas, a inter-relação de saberes desenvolvidos não só pelos vários campos de conhecimentos, mas também pelas diferentes disciplinas que compõem o programa escolar e pelos temas transversais. Devemos seguir a recomendação do educador espanhol Jurjo Torres Santomé, que considera a interdis­ciplinaridade como ação que confere significado ao conteúdo escolar e ao mesmo tempo rompe com a divisão hermética das disciplinas. Não é difícil observar que todos os saberes se relacionam e dialogam entre si. Estabelecer uma inter-relação desses saberes é fundamental para superar desafios e para se posicionar crítica e ativamente dian­te das questões colocadas pela realidade. Contextualização e interdisciplinaridade são importantes pilares para a construção de um ensino integrador e independente, que contribua para a formação de indivíduos críticos e autônomos.

Se considerarmos as competências e habilidades pre­vistas em parâmetros e diretrizes curriculares oficiais, percebe-se que a interdisciplinaridade acontece como um processo quase que inerente ao exercício de lei­tura, de compreensão e também de escrita de textos, no caso da disciplina de Língua Portuguesa. Afinal, os alunos aprendem a língua no uso e, portanto, não se separa um momento para aprender a ler, outro momento para aprender a escrever e outro para apren­der a falar. Essas atividades acontecem simultanea­mente.

Na escola, é necessário que o professor promova ações interdisciplinares de acordo com as demandas de seus alunos ou de acor­do com o projeto pedagógico proposto pela escola. O importante é que a escola e seus agentes (professo­res, coordenadores, diretores, pais e alunos) assumam a interdisciplinaridade como uma proposta de mudan­ça dentro do ambiente educacional, uma mudança que não se limite a adaptar o ensino tradicional linear (cada vez mais esgotado), mas sim de superar, sempre que possível, os programas de disciplinas estagnadas, já que, como defendia Heráclito, o mundo é mesmo feito de mudanças.

 

 


[1] Sobre a relação entre informação e conhecimento, recomen­damos a leitura do artigo “O naufrágio de muitos internautas”, de Mario Sergio Cortella, publicado no jornal Folha de S.Paulo e disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq0607200025.htm. Acesso em: 07 jun. 2014.

RTRenato Tresolavy

Meu nome é Renato Luiz Tresolavy, sou editor de livros didáticos e fui professor de escola pública. Neste espaço do site Portuguêé Legal, gentilmente cedido pela minha amiga Carol Pereira, proponho discutir com estudantes, pais e professores assuntos que envolvem o ensino e aprendizagem de gramática, produção de textos, leitura e literatura. A cada semana, pretendo trazer aqui um tema diferente sobre o universo maravilhoso do Português.

 

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Por Renato Tresolavy Existem algumas máximas que resistem ao tempo pela força universal que possuem, por sua capacidade de entender e explicar o mundo e seus eventos e de sintetizar a dinâmica das sociedades e suas transformações. Heráclito de Éfeso (535 a.C.- 475 a.C.), filósofo grego pré-socrático, é autor de uma dessas máximas que sobrevivem […]

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