2 Fevereiro 2015

Por Renato Tresolavy

Elas estão por todo lugar, invadindo nossas mentes com sua força persuasiva e criativa e mexendo com nossos sentidos. Na televisão, no rádio, nos livros, na música, na internet. A comparação e a metáfora, duas figuras de linguagem, exercem influência importante na construção de todo o tipo de discurso que dizemos, lemos ou ouvimos, porque elas quase sempre provocam nossas emoções e conferem beleza e expressividade à mensagem. A comparação certa ou a metáfora bem pensada são recursos argumentativos poderosos, principalmente quando o assunto é convencer alguém do que quer que seja.

A metáfora é uma comparação abreviada, como nos ensina o professor António Suárez Abreu, da Unicamp, no livro A Arte de Argumentar (Ateliê Editorial).  Antes de falar da metáfora em si, vejamos o que é uma comparação. Ouvi esses dias uma propaganda no rádio que procurava convencer o ouvinte a alugar um carro em determinada locadora, porque alugar ali é tarefa muito fácil e livre de burocracias. Para convencer, a propaganda comparou a facilidade do aluguel com uma facilidade, digamos, culinária (a comparação aproxima semelhanças, no caso, aproxima facilidades): é fácil alugar, tão fácil como preparar pipoca no micro-ondas. Comparação inusitada, estranha e engraçada. Mas as comparações são também poéticas e sublimes, como na linda e melancólica música de Lulu Santos e Nelson Motta, Certas coisas: “Eu te amo calado/como quem ouve uma sinfonia/de silêncios e de luz…/Tem certas coisas que eu não sei dizer”.

Já a metáfora (transporte, do grego metaphorá), por sua vez, não é construída com palavras ou expressões de valor comparativo (como, tal qual, semelhante a), daí porque é considerada uma comparação abreviada. Na metáfora, há uma ideia de transporte de sentidos: do sentido próprio para o figurado, e a comparação continua existindo, só que de forma implícita. Padre Antônio Vieira, no Sermão do Santíssimo Sacramento, constrói uma metáfora tão expressiva quanto criativa para falar da importância essencial da união para a vida:

Toda a vida não é mais que uma união. Uma união de pedras é edifício; uma união de tábuas é navio; uma união de homens é exército. E sem essa união tudo perde o nome e mais o ser. O edifício sem união é uma ruína; o navio sem união é naufrágio; o exército sem união é despojo.

Como não acreditar na força e no poder da união para a vida ao ler essas metáforas de Vieira? Somos imediatamente persuadidos a acreditar que a vida se confunde com a união, sem união não há vida, não há edifícios, não há navios ou exércitos. E eu me atrevo a aumentar a lista: não há texto, não há equipes de futebol, não há família…

Tanto a comparação como a metáfora dão mais cor, estilo e emoção a nossas palavras. São duas figuras de linguagem que tornam nossas palavras mais originais, mais incisivas e comoventes.  Basta comparar por exemplo a união de Vieira com os significados de união no dicionário (Aulete Digital): 1. Ação ou resultado de unir, ligar; 2. Associação de pessoas ou coisas; […] 4. Casamento, matrimônio. Por essas e outras que Padre Antônio Vieira (1608-1697) é considerado até hoje um dos maiores oradores da literatura e maior expressão do Barroco em língua portuguesa.

 

RTRenato Tresolavy

Meu nome é Renato Luiz Tresolavy, sou editor de livros didáticos e fui professor de escola pública. Neste espaço do site Portuguêé Legal, gentilmente cedido pela minha amiga Carol Pereira, proponho discutir com estudantes, pais e professores assuntos que envolvem o ensino e aprendizagem de gramática, produção de textos, leitura e literatura. A cada semana, pretendo trazer aqui um tema diferente sobre o universo maravilhoso do Português.

 

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Nossa missão é combater o preconceito linguístico e dar dicas sobre o padrão da língua, que todos têm o direito de conhecer.



27 Janeiro 2015

A partir de hoje, nosso site passa a ter uma coluna semanal com textos de outras pessoas! O primeiro a entrar no esquema foi o Renato Tresolavy, que já enviou pra gente alguns textos que serão publicados aqui   🙂  Não percam! Eis o primeiro:

 

Neste primeiro texto, vamos conversar sobre o conceito de… texto! O que é um texto? Imagine-se respondendo a essa pergunta. O que você responderia? Bom, não há só uma resposta possível, ou melhor, não há uma resposta única para essa pergunta, já que dependendo da corrente teórica adotada, análise do discurso ou semiótica, por exemplo, o conceito de texto muda consideravelmente. Vamos adotar aqui a perspectiva de texto sob o ponto de vista da linguística textual. Podemos dizer, a partir dessa corrente teórica, que um texto é construção de sentido, produto de uma intenção e pertence necessariamente a um gênero. Vamos explicar ponto a ponto. Segundo o professor Ernani Terra, em seu livro Leitura do texto literário, “o sentido do texto é construído pelo leitor”. Isso significa dizer que os textos nunca estão prontos, esperando apenas sua decodificação, já que língua não é apenas um código esperando ser decifrado. O leitor traz sempre consigo suas experiências, seu repertório, seu conhecimento linguístico para dialogar com o texto que se propõe a ler. Desse diálogo entre autor e leitor, intermediado pelo texto, surge o entendido ou às vezes, o mal-entendido, dependendo do caso.

Os textos são também produtos de uma intenção, porque não existem textos neutros, desprovidos de intenções. Todo texto é marcado pela intencionalidade, aliás, a intenção é a essência de um texto. Há textos que têm a intenção de convencer o leitor de algo, de informar sobre um fato, de emocionar pela poesia, de provocar uma ação, de convocar para participar de uma causa, de ensinar uma receita de bolo. As possibilidades são múltiplas e variadas. Com um texto, enfim, pretendemos exercer influência no leitor conseguindo sua adesão a um propósito comunicativo.

Assumir que os textos pertencem também a um gênero significa dizer, nas palavras do professor Antonio Suárez Abreu, em seu livro O Design da Escrita, que “um texto é sempre produzido em uma situação particular de interação social, seja um editorial, uma propaganda, um telefonema, uma dissertação escolar ou até mesmo um romance…”. Concluímos, então, que, se os textos são produzidos sempre em situação particular de interação, seja ela qual for, todo texto pertence a um gênero. E as possibilidades de gêneros textuais são praticamente infinitas. E antes de encerrar também é importante dizer: os textos se manifestam em diversas formas e linguagens, inclusive não verbais, como placas de trânsito ou mesmo nossos gestos. Há inclusive os hipertextos, textos que apresentam múltiplas linguagens e possibilidades de leitura.

 

RTRenato Tresolavy

Meu nome é Renato Luiz Tresolavy, sou editor de livros didáticos e fui professor de escola pública. Neste espaço do site Portuguêé Legal, gentilmente cedido pela minha amiga Carol Pereira, proponho discutir com estudantes, pais e professores assuntos que envolvem o ensino e aprendizagem de gramática, produção de textos, leitura e literatura. A cada semana, pretendo trazer aqui um tema diferente sobre o universo maravilhoso do Português.

 

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