29 Dezembro 2015

Desde que o Português é legal foi colocado no ar, tanto aqui quanto nas outras redes, sempre apresentamos nosso propósito do seguinte modo: “combater o preconceito linguístico e dar dicas sobre o padrão da língua, que todos têm o direito de conhecer”.
A segunda parte é mais fácil: compartilhamos dicas, sobretudo no Facebook e no Instagram, e os seguidores parecem gostar (curtem, compartilham, marcam amigos, enviam comentários, pedem explicações… tudo certo e tudo ótimo!).
Mas a parte de combater o preconceito linguístico é realmente complicada. Em geral, quando publicamos alguma dica sobre a norma-padrão (isto é, aquela que é considerada oficial), procuramos explicar por que aquela forma é pouco usada ou ressaltar a possibilidade de que ela deixe de fazer parte das gramáticas normativas dentro de alguns anos ou décadas, como acontece muitas vezes com estruturas linguísticas que deixam de ser usadas pelos falantes.
Apesar disso, observamos que muitos dos nossos seguidores compartilham essas dicas com mensagens como “parem de errar isso!!!”, “aprendam de uma vez por todas!”, “pelo amor de Deus, pessoal, nem é tão difícil assim” e coisas do tipo. É claro que não queremos (nem poderíamos) controlar a leitura que cada pessoa faz de nossas postagens e a intenção com que cada um vai repassá-las a outras pessoas – pelo contrário, já que os compartilhamentos nos ajudam a crescer. Mas é interessante observar como é real a tendência de as pessoas se queixarem do modo como os outros falam, das “regras” que desconhecem e dos “erros” supostamente inaceitáveis que cometem. De certa maneira, todos nós somos levados a acreditar que essa crítica é construtiva e que há algo de muito positivo em apontar os “erros” dos outros. No entanto, a valorização do conhecimento em nada se parece com a ridicularização da ignorância (no sentido de desconhecer algo) alheia.
Por esse motivo, passamos os últimos dois anos repetindo a mesma mensagem e buscando desconstruir a visão que temos acerca do uso da língua. Nada disso significa que desvalorizamos o padrão (ou não publicaríamos tantas dicas quase diariamente). Significa apenas que ensinamos português para proporcionar uma ampliação de conhecimentos, não para impor uma variedade linguística a uma pessoa que não é falante dela.
A língua oficial precisa ser ensinada por ser um dos instrumentos que permite que uma pessoa atue politicamente, mas seu ensino não pode ser opressor. É preciso partir do pressuposto de que não é necessário aprender a “falar direito” para se tornar cidadão; a cidadania é um direito e não algo a ser alcançado. Se as pessoas crescem sem conhecer a língua-padrão, trata-se, na maioria dos casos, de uma dívida do Estado, que não a proporcionou adequadamente. Ninguém pode ficar fadado ao silêncio eterno para não machucar os ouvidos estudados de quem não aprendeu ainda que a língua é de todos, que ela muda e que os modos de falar variam mesmo na esfera individual.
Voltaremos a esse assunto nos próximos dias. Por enquanto, fiquemos com as citações prometidas no título.

Até a próxima!

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Carol Pereira
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Pablo Martins
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Desde que o Português é legal foi colocado no ar, tanto aqui quanto nas outras redes, sempre apresentamos nosso propósito do seguinte modo: “combater o preconceito linguístico e dar dicas sobre o padrão da língua, que todos têm o direito de conhecer”. A segunda parte é mais fácil: compartilhamos dicas, sobretudo no Facebook e no […]

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Nossa missão é combater o preconceito linguístico e dar dicas sobre o padrão da língua, que todos têm o direito de conhecer.



22 Novembro 2015

Houve uma época do passado em que o ano começava em março, sendo janeiro e fevereiro os dois últimos meses. Daí decorre que o nome do mês de SETEMBRO (September, setiembre, septembre, settembre etc.) não era arbitrário: tratava-se do sétimo mês do ano.

Quando, em 46 a.C., Júlio César alterou o calendário, implantando o que ficaria conhecido como calendário juliano, setembro passou a ser o mês 9, deixando de ter relação com seu nome.

Hoje em dia, essa “estranheza” não nos causa estranheza; apenas aprendemos essa informação sem questionar. O mês NOVE não é o “NOVEmbro”, mas o “SETEmbro”, e está tudo bem.

Concordemos ou não com a mudança feita por Júlio César, ela aconteceu e foi incorporada no cotidiano de tal modo que, embora provavelmente tenha causado incômodo nas pessoas que tiveram de se adequar a ela naquela época, já se naturalizou.

Mudanças acontecem, sejam elas “naturais” ou “implantadas”. E a gente se acostuma com elas, não é? Depois de um tempo, já nem lembra como era antes e a nova realidade passa a ser vista com naturalidade. Parece mensagem motivacional, mas é só uma provocação para quem acredita que é preciso “lutar” para “preservar” nossa língua tal como ela é.

O exemplo clássico para ilustrar essa ideia é a metamorfose pela qual passou nosso pronome de tratamento “você”. Para nós, trata-se da maneira “correta” de “falar e escrever” o português. Para quem tenha nascido um pouco antes de nós, entretanto, certamente essa grafia causara incômodo, uma vez que o que era considerado correto anteriormente era o “voscê”. Mas para quem nasceu um pouco antes dos falantes de “voscê”, esse pronome certamente pareceu uma redução preguiçosa e errada do correto “vosm’cê”. Vocês bem sabem, porém, que “vosm’cê” nada mais era que uma simplificação de seu predecessor “vosmecê”, que, por sua vez, foi a simplificação do “vossemecê”, que também resultou da simplificação do “vossa mercê”.

Quando um falante afirma que as pessoas estão assassinando a língua portuguesa, a que língua está se referindo? Porque o próprio uso do “você”, tão comum nos dias de hoje, seria considerado um assassinato inaceitável alguns séculos atrás. Quando alguém argumenta que os linguistas querem simplificar a língua porque somos incapazes de ensiná-la, me pergunto se essa pessoa escreve “pharmácia”, “craro” (para “claro”), “coraçom” (para “coração”), “molier” (para “mulher”), “arbores” (para “árvores”), “phase”, “lagryma”, “psychologico” e até “portuguez”, que já foram consideradas corretas e não são mais.

Assim como não nos incomoda chamar o nono mês do ano de setembro, também não parecemos constrangidos por ter mexido na grafia do português de séculos atrás (Se houvesse constrangimento, certamente escreveríamos “jnoramçia” e não “ignorância”, “lête” e não “leite”, “lympeza” e não “limpeza” e assim por diante). Por que tanta relutância em permitir que a língua que usamos hoje também mude? O fato é que ela vai mudar independentemente de nossa vontade ou permissão. Já mudou e continua mudando.

Como costuma afirmar o professor Marcos Bagno, não faz sentido querer proteger uma língua de seus próprios falantes. Alguém discorda?

 

Escrito por
Carolina Pereira | carolinajesper@gmail.com | @carolinajesper

Mestre em Educação (USP), especializada em Tradução (UGF), graduada em Letras (USP)

Variação diacrônica do pronome de tratamento você / vossa mercê / vosmecê

peltexto

.Autoria: Carol Pereira

283x91@2x| carolinajesper@gmail.com.

Houve uma época do passado em que o ano começava em março, sendo janeiro e fevereiro os dois últimos meses. Daí decorre que o nome do mês de SETEMBRO (September, setiembre, septembre, settembre etc.) não era arbitrário: tratava-se do sétimo mês do ano. Quando, em 46 a.C., Júlio César alterou o calendário, implantando o que […]

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27 Fevereiro 2015

Não dá pra negar: nós julgamos as pessoas com base na maneira como elas falam. Questionamos quando alguém que ocupa um cargo alto comete desvios em relação à norma-padrão da língua, ridicularizamos quem parece assassinar a língua portuguesa (leia mais) e duvidamos de que um presidente que “não sabe nem falar” possa governar nosso país. O fato é: estamos errados. Se nos julgamos cultos e aptos o bastante a ponto de podermos avaliar a fala dos outros, certamente também poderemos tentar entender a razão que a desencadeia. É uma maneira de perceber que o funcionamento da língua é mais complexo do que parece e de pararmos de simplesmente nos queixar em nome de nossos ouvidos sensíveis, que não sabem lidar com variantes da nossa língua. Alguns exemplos:

 

Menas é mais

As pessoas aprenderam que as palavras relacionadas a substantivos femininos devem ficar no feminino. Por exemplo:

muitos homens, muitas mulheres

muitos dias, muitas vezes

muito sono, muita vontade

E, seguindo o mesmo raciocínio, dizem:

Menos cansado, menas cansada

Menos pesado, menas pesada

O “menos”, porém, não tem flexão de gênero. Sendo assim, “menas”, em teoria, não existe. Por que motivo, então, as pessoas usam essa palavra?

Quem diz “menas” usa sempre com palavra feminina. Ninguém vai falar “menas dias” ou “menas homens”, mas sim “menas horas”, “menas vezes”, “menas oportunidades”, “menas fome”. Ou seja: estão aplicando a flexão de gênero, o que estaria certo em quase todos os outros contextos, mas não nesse. O raciocínio está certo. Não se trata de um erro absurdo, de ignorância, burrice ou incompetência. É apenas uma exceção que algumas pessoas desconhecem. Mais que isso: podemos considerar um caso de hipercorreção, pois é justamente por ter um conhecimento que esse equívoco é cometido. O “problema” (que, convenhamos, não constitui de fato um problema) é que um conhecimento que foi adquirido está sendo aplicado em mais contextos do que deveria. Uma pequena inadequação, nada grave.

 

A flor de zíaco

Podemos até achar engraçado, mas antes de deslegitimarmos o indivíduo que fez esse registro, cabe perguntar: Que caminho foi percorrido para que “afrodisíaco” se tornasse “a flor de zíaco”?

Comecemos pela “flor”. Em algumas regiões, é comum a troca do L pelo R (rotacismo, o mesmo fenômeno percebido em “frauta”, “Craudio”, “pranta” etc.), bem como a supressão do R final (como em “dotô”, “amô”, “calô”). Não seria estranho supor, portanto, um falante que refletisse consigo: “bem, eu falo FRÔ, mas a gente escreve FLOR”. Pensemos agora sobre a sílaba “di”, em “afrodisíaco”. Como é comum pronunciarmos i em palavras terminadas com a letra E, seria plausível supor novamente que o falante se convenceu de que falamos “di”, mas devemos escrever “de”. Ou seja, o raciocínio que transformou “afrodisíaco” na flor de zíaco é completamente lógico! Essa nova segmentação, embora provoque risos, não pode ser considerada um resultado de ignorância, uma vez que foram justamente os SABERES do falante que resultaram nela.

 

Quem tem um pobrema tem dois

E quem diz essa frase também tem um problema, que é nunca ter estudado a história da nossa língua (e de outras). O rotacismo, nome dado ao fenômeno de trocar L por R (e vice-versa), é algo verificado ao longo da evolução de várias línguas. No caso do português, há muitas palavras que hoje usamos com R mas que, em sua origem, eram grafadas e pronunciadas com L. Tiramos alguns exemplos de um livro do professor Marcos Bagno:

blandu > brando

flaccu > fraco

obligare > obrigar

plica > prega

Essas mudanças são próprias das línguas! Quando temos mais facilidade para pronunciar determinados sons, tendemos a preferi-los em detrimento de outros. A lei do mínimo esforço é bastante comum nessa área, ou alguém acha que “vossa mercê” era mais fácil de pronunciar que “você”? E por que cortamos o R final do infinitivo dos verbos (“estudá”, “fazê”, “comê”)?
Se achamos que uma pessoa não merece ser ouvida porque não conhece todas as convenções da língua, quem tem um problema somos nós.

 

Por fim…

Não custa lembrar que a nossa mania de rir de quem “fala errado” é menos uma preocupação linguística que nosso ímpeto por discriminar o diferente. Como disse o professor Sírio Possenti: “No fundo, o preconceito linguístico é um preconceito social. É uma discriminação sem fundamento que atinge falantes inferiorizados por alguma razão e por algum fato histórico. Os que dizemos que falam errado são apenas cidadãos que seguem outras regras e que não têm poder para ditar quais são as elegantes.”

 

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PS: Proponho um exercício rápido. Quando criticamos quem comete algum desvio em nossa língua, nos esquecemos de que existem sempre aquelas normas que desconhecemos. Veja as dicas abaixo e responda: você sabia?   🙂

1. A palavra “siclano” não consta em nenhum dicionário! O correto é dizer “fulano, beltrano e sicrano”.

2. “Dó” é uma palavra masculina, portanto, se quisermos ser grammarnazis, deveremos dizer “me deu um dó!” e não “uma dó”.

3. A conjugação correta do verbo VER é “se eu vir”, e não “se eu ver”.

4. Embora seja comum ouvirmos “a champanhe”, essa palavra está registrada em boa parte dos dicionários como substantivo masculino, e no VOLP como substantivo de dois gêneros!

5. Uma crise pode por “em XEQUE” o futuro de nossa cidade, e não “em cheque”.

6. Quem nasce na Bahia é baiano, sem H.

7. Quem torce pro Corinthians é corintiano, sem H.

8. “Mascote” é um substantivo feminino.

9. A frase “Gosto de livros que baseiam-se em histórias reais” está errada. Obrigatoriamente, devemos dizer “livros QUE SE BASEIAM”, pois o “que” atrai o “se”.

10. “Grama” é um substantivo feminino quando estamos falando daquela ervinha verde de jardim. Já a unidade de medida é um substantivo masculino. Por isso pedimos duzentos gramas de presunto, e não duzentas.

 

marcuschiiiiiiiiiiiiiiiii

 

ziaco

 

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Não dá pra negar: nós julgamos as pessoas com base na maneira como elas falam. Questionamos quando alguém que ocupa um cargo alto comete desvios em relação à norma-padrão da língua, ridicularizamos quem parece assassinar a língua portuguesa (leia mais) e duvidamos de que um presidente que “não sabe nem falar” possa governar nosso país. […]

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30 Outubro 2014

Li, certa vez, que o valor das coisas está em sua raridade. De fato, não nos surpreenderíamos com cantores líricos se tivéssemos todos nascido com a mesma habilidade para o canto, nem ficaríamos curiosos ao ver Ferraris imponentes se houvesse uma dessas na garagem de cada um de nós. Não há o que discutir: quanto mais raras, mais preciosas são as coisas. Será que o mesmo raciocínio não funciona no campo das palavras?

Um dos problemas provenientes do uso excessivo de algo é o aniquilamento de suas possibilidades de impacto. Se qualquer piada tosca é “genial”, a ideia de genialidade se dissipa; se amamos todo mundo, convém repensar o conceito de amor; se dizemos a cada um de nossos amigos o quanto são especiais, inevitavelmente ninguém o é; e se chamamos de tragédia um corte de cabelo que deu errado, como expressar a surpresa diante de um infortúnio concreto?

Quando foi divulgada a notícia de que médicos cubanos ganhariam menos que os brasileiros, por exemplo, a acusação de “trabalho escravo” alastrou-se pelas redes. Receber um salário pequeno, entretanto, não é suficiente para configurar escravidão. Também foi a expressão “trabalho escravo” que se difundiu quando se soube de um projeto que obrigaria os estudantes de medicina a trabalhar dois anos no SUS com uma bolsa entre R$ 3 mil e R$ 8 mil. Se o uso da expressão se torna trivial, como diferenciar os casos em que um trabalho efetivamente irregular demandaria mais seriedade e urgência?

Evidentemente, não ignoramos a construção de acepções simbólicas, sentidos figurados, hipérboles intencionais, mas cabe refletirmos se nossa seleção vocabular não evidencia uma reação desproporcional de nossa parte, uma incapacidade de distinguir o valor de fatos destoantes.

Embora as palavras possam conferir notoriedade a nossos argumentos, banalizá-las, em alguns casos, parece revelar algo de equivocado em nós. Quando o luto passa a ser um sentimento que se tem perante qualquer contrariedade, seja uma discordância relativa à vida privada ou um fato como a derrota de um candidato político, o que guardamos de especial para expressar o pesar profundo diante da perda de alguém? Ainda que palavras desgastadas não minimizem o horror ou a transcendência dos fatos, certo pudor ou parcimônia em seu uso pode resguardá-las de perder sua essência.

Afinal de contas, qual o sentido de despi-las justamente daquilo que faz delas impactantes?

 

Carol é formada em Letras, trabalha com livros didáticos e faz mestrado em Educação. carolinajesper@gmail.com | @minaszilda

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deluto

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