23 Maio 2014

 

Em 2008, quando era bolsista de Iniciação Científica, entrevistei algumas pessoas mostrando anúncios publicitários selecionados por conterem texto em inglês e fazendo perguntas como “O que está sendo anunciado aqui?”, “Você se interessaria por esse produto?” etc. Um desses anúncios trazia uma paisagem campestre, com uma árvore ao fundo, bolas azuis na grama, um cavalo branco e um casal que se abraçava de forma sensual. O único texto era “Powered by Pfizer”, mais ou menos o que você pode ver aqui (falta o cavalo nesta versão). Depois de 30 entrevistas, duas me chamaram muita atenção: a primeira com uma pessoa que, convicta, afirmou: “Mais uma vez é o governo mostrando a necessidade de cuidar do meio ambiente, preservar a natureza, cuidar das árvores…”. O outro entrevistado respondeu, quando perguntei o que estava sendo anunciado, que certamente se tratava de uma propaganda dirigida a fazendeiros que quisessem adquirir animais. Não os informei à época, mas o anúncio era do medicamento Viagra.

Em 2009, ouvi sem querer uma conversa de duas mulheres que falavam sobre um programa de televisão que oferecia cirurgias bariátricas a moças obesas e as acompanhava posteriormente para observar suas mudanças. O comentário que ouvi dizia respeito ao fato de as moças operadas terem ficado loiras um tempo depois da cirurgia. “É impressionante mexer no estômago e afetar a cor do cabelo, não é?”, disse uma, ao que a outra respondeu “pois é”.

Em 2010, uma amiga editora estava indignada com um profissional que havia cometido alguns equívocos em sua tradução, como o de escrever que uma loja vendia “40 LPs” quando, na verdade, o texto original dizia “LPs da década de 40” (40’s LPs, em inglês).

Em 2011, grande parte da mídia brasileira se manifestou contrariamente a uma coleção de livros didáticos chamada “Viver, aprender” alegando que o MEC havia aprovado um material que “ensina o aluno a falar errado”. Não pretendo chutar porta aberta com polêmica que já caducou, mas suponho que alguns tenham saído com uma conclusão equivocada depois da querela midiática.

Em todos esses casos, um pouco de pulga atrás da orelha teria evitado problemas de interpretação e convicções equivocadas. Faltou acender aquela luz vermelha que faz a gente se perguntar: SERÁ? Por que enfeitar com bolas azuis um anúncio de conscientização sobre a natureza? Será mesmo que uma cirurgia seria capaz de alterar a cor do cabelo de alguém? Por que alguém abriria uma loja para vender apenas 40 LPs? E os especialistas do MEC, por que defenderiam que os alunos aprendessem algo errado?

O que isso tudo tem a ver com português eu explico agora. Muitos equívocos de interpretação de texto e de tradução, por exemplo, parecem ser consequência de um momento em que faltou a pessoa parar e se dizer “mas espera, isso não faz sentido”. Pulga atrás da orelha também vale para dúvidas de ortografia: quem desconfia vai atrás, checa e aprende. Embora todos estejamos sujeitos a cometer equívocos, cabe pensar bem sobre esses exemplos e perceber que não se trata de acertar questões da prova de português, mas de evitar que algo evitável acabe afetando outras esferas de nossas vidas.

 

carol-pereira-portugueselegal Carol tem graduação em Letras, mestrado em Educação, e é editora de livros didáticos de português e inglês. carolinajesper@gmail.com

  Em 2008, quando era bolsista de Iniciação Científica, entrevistei algumas pessoas mostrando anúncios publicitários selecionados por conterem texto em inglês e fazendo perguntas como “O que está sendo anunciado aqui?”, “Você se interessaria por esse produto?” etc. Um desses anúncios trazia uma paisagem campestre, com uma árvore ao fundo, bolas azuis na grama, um […]

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Nossa missão é combater o preconceito linguístico e dar dicas sobre o padrão da língua, que todos têm o direito de conhecer.



27 Dezembro 2013

Trecho do poema Cântico negro, do escritor José Régio.

Trecho do poema Cântico negro, do escritor José Régio.

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9 Dezembro 2013

Neste vídeo, explicamos um pouco sobre as ideias que nos guiam na execução deste projeto.

Bem-vindos!

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Neste vídeo, explicamos um pouco sobre as ideias que nos guiam na execução deste projeto. Bem-vindos!

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25 Novembro 2013

Será que a Língua Portuguesa é mesmo difícil? Por que é comum ouvir brasileiros dizerem que não sabem falar português? Será que a experiência escolar com o ensino de Língua Portuguesa causa traumas aos falantes da língua? Estas e outras perguntas nos vêm à mente quando buscamos entender o desinteresse que muitos falantes expressam pelo nosso idioma. Pensando nisso, este projeto surge como uma tentativa de mostrar aos brasileiros algo que até então nos parecia óbvio: Português é legal!

Por um lado, pretendemos combater o preconceito linguístico, mostrando por que a ideia de “falar certo” não procede. Falar e escrever bem significa conseguir causar o efeito desejado, e não seguir esta ou aquela regra.

Por outro lado, achamos necessário popularizar as convenções da língua, que são um instrumento de poder. Nosso plano é falar sobre dúvidas do dia a dia, coisas que nos perguntam quando sabem sobre nossa formação. Um falante comum não quer saber se em português o pronome oblíquo átono tem flexão de gênero. O que quer saber é: “às vezes tem crase?”; “dia a dia tem hífen?”; “porque tem acento?”. Quem usa a língua quer saber se é certo falar gratuíto ou gratuito; pouco importa se isso é verbo, adjunto ou adjetivo.

Como vocês verão ao longo deste projeto, concordamos com o professor Evanildo Bechara quando ele afirma que “o sucesso da educação linguística é transformar o falante em um ‘poliglota’ dentro de sua própria língua nacional” (BECHARA, 2001, p. 38). Isso significa ser capaz de transitar entre diferentes falares, em diferentes contextos e com objetivos diversos, e não apenas aprender a falar segundo as “normas”.

Nosso objetivo não é ensinar ninguém a “falar direito” ou a “não cometer erros”, e tampouco queremos dar a impressão de que as pessoas têm obrigação de conhecer a norma-padrão da nossa língua. Mas achamos que todo mundo tem o direito de conhecê-la.

Bem-vindos!

Carol & Pablo

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Será que a Língua Portuguesa é mesmo difícil? Por que é comum ouvir brasileiros dizerem que não sabem falar português? Será que a experiência escolar com o ensino de Língua Portuguesa causa traumas aos falantes da língua? Estas e outras perguntas nos vêm à mente quando buscamos entender o desinteresse que muitos falantes expressam pelo […]

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