18 Abril 2015

 

1) Até o século V, a leitura considerada normal era aquela que se fazia em voz alta. Ler em silêncio era algo visto com estranheza!

2) Na antiga escrita em rolos, não havia espaços separando as palavras, não se usava pontuação e não existiam letras maiúsculas e minúsculas. Como se lia em voz alta, o olho precisava desembaralhar aos poucos aquelas letras, formando palavras.

2) Agostinho, professor de retórica do século IV (que hoje chamamos de Santo Agostinho), se horrorizava ao presenciar alguém lendo em silêncio. Para ele, “o texto escrito era uma conversação, posta no papel para que o parceiro ausente pudesse pronunciar as palavras destinadas a ele”.

3) Desde os tempos das tabuletas sumérias, as palavras escritas destinavam-se a serem pronunciadas em voz alta.

4) Tanto em aramaico como em hebreu, que são as línguas primordiais da Bíblia, o mesmo verbo é usado para o ato de ler e o ato de falar.

5) No século XI, um teólogo estabeleceu regras para a leitura do Corão, entre as quais estava ler alto o suficiente para que o leitor escute, o que afastaria as distrações do mundo externo.

6) O modo como lemos no mundo ocidental (da esquerda para a direita e de cima para baixo) não tem nada de universal e varia de época para época. Hebreu e árabe eram lidos da direita para a esquerda; chinês e japonês eram lidos em colunas, de cima para baixo; alguns escritos da Grécia antiga eram escritos com linhas alternadas em direções opostas.

7) Alguns religiosos temiam a leitura silenciosa e ficaram muito desconfiados quando ela virou moda. Eles achavam que, além de estimular o pecado da preguiça, ela abriria espaço para se sonhar acordado.

8) Na sociedade cristã do começo da Renascença, alguns aristocratas (e, depois do século XIII, os burgueses) achavam que ler e escrever eram ocupações menores, coisa de clérigo pobre. Apesar disso, os ricos eram praticamente os únicos a ter esse privilégio.

9) Na Idade Média, alguns moralistas acreditavam que as meninas deviam ser proibidas de aprender a ler e escrever, a menos que quisessem ser freiras. Eles temiam que elas se envolvessem com a escrita de cartas amorosas!

10) Antigamente, os livros consistiam em uma série de tabuletas mesopotâmicas de cerca de 7,5 cm de largura. Mantidas em uma bolsa ou caixa de couro, essas “páginas” não perdiam sua ordenação.

 

Todas essas curiosidades foram retiradas do livro “Uma história da leitura”, de Alberto Manguel, da editora Companhia das Letras. Em breve, mais informações sobre leitura e escrita aqui!

🙂

 

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Gentilmente revisado por Percival de Carvalho.

 

  1) Até o século V, a leitura considerada normal era aquela que se fazia em voz alta. Ler em silêncio era algo visto com estranheza! 2) Na antiga escrita em rolos, não havia espaços separando as palavras, não se usava pontuação e não existiam letras maiúsculas e minúsculas. Como se lia em voz alta, […]

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15 Abril 2015

Que tal um pouco de leitura?

 

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony
Artigo I 
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II 
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III 
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV 
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único: 
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V 
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI 
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII 
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX 
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X 
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI 
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII 
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único: 
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII 
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final. 
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964 

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Que tal um pouco de leitura?   Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente) A Carlos Heitor Cony Artigo I  Fica decretado que agora vale a verdade. agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira. Artigo II  Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm […]

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30 Janeiro 2015

Uma das principais reclamações entre quem se recusa a ler grandes nomes da literatura brasileira é a suposta dificuldade para compreender o vocabulário dos livros. Por isso, resolvemos escrever um post curtinho e divertidinho e mostrar que não há motivos pra se assustar ao se deparar com uma palavra desconhecida. Em alguns contextos, mesmo que a palavra não estivesse lá, poderíamos entender todo o texto. Duvida? Observe a estratégia usada no anúncio publicitário a seguir:

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O contexto bastou para que você completasse as primeiras frases sem dificuldade, não foi?
O mesmo acontece com qualquer trecho do Machado de Assis. Você sabe o que é uma alcova? Será de comer? De vestir? Dá pra comprar? É um nome pejorativo?
Vejam estes dois períodos de Dom Casmurro, por exemplo:

“Pádua enxugou os olhos e foi para casa, onde viveu prostrado alguns dias, mudo, fechado na alcova.”
“Fizeram-me entrar na alcova, onde ele jazia estirado na cama, mal coberto por uma colcha de retalhos.”

 

Lendo a primeira frase, a gente já saberia que se trata de um lugar. Com a segunda, sabendo que a alcova é o lugar onde encontramos a cama, fica fácil! Segundo o dicionário, era esse o nome de pequenos quartos de casas antigas.

Vejamos, agora, dois trechos do livro Quincas Borba:

“Freitas elogiava tudo, saudava cada prato e cada vinho com uma frase particular, delicada, e saía de lá com as algibeiras cheias de charutos.”
“Levantou-se, meteu as mãos nas algibeiras das calças e, depois de alguns passos, parou defronte de Sofia.”

 

Antes de ficar nervoso com a palavra desconhecida, tente imaginar aquele espaço em branco. Onde seria possível guardar charutos? Em uma bolsa? Um estojo? Olhando a segunda frase, fica fácil: se algibeira é um compartimento da calça onde é possível enfiar as mãos, só pode ser o bolso.

Essa tática vale também pra quem está aprendendo um idioma novo: em alguns contextos, somente determinadas palavras caberiam. A dica é reler a frase imaginando quais palavras fariam sentido lá. Costuma funcionar!

Se você tem outras dificuldades (birras, repulsas, fobias) ao ler, conte pra gente quais são e tentaremos ajudar! Fugir de autores SUPERLEGAIS como Machado de Assis por não entender algumas palavras é como deixar de ir à praia porque vai se sujar de areia.

Até a próxima!  😉

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Uma das principais reclamações entre quem se recusa a ler grandes nomes da literatura brasileira é a suposta dificuldade para compreender o vocabulário dos livros. Por isso, resolvemos escrever um post curtinho e divertidinho e mostrar que não há motivos pra se assustar ao se deparar com uma palavra desconhecida. Em alguns contextos, mesmo que […]

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27 Janeiro 2015

A partir de hoje, nosso site passa a ter uma coluna semanal com textos de outras pessoas! O primeiro a entrar no esquema foi o Renato Tresolavy, que já enviou pra gente alguns textos que serão publicados aqui   🙂  Não percam! Eis o primeiro:

 

Neste primeiro texto, vamos conversar sobre o conceito de… texto! O que é um texto? Imagine-se respondendo a essa pergunta. O que você responderia? Bom, não há só uma resposta possível, ou melhor, não há uma resposta única para essa pergunta, já que dependendo da corrente teórica adotada, análise do discurso ou semiótica, por exemplo, o conceito de texto muda consideravelmente. Vamos adotar aqui a perspectiva de texto sob o ponto de vista da linguística textual. Podemos dizer, a partir dessa corrente teórica, que um texto é construção de sentido, produto de uma intenção e pertence necessariamente a um gênero. Vamos explicar ponto a ponto. Segundo o professor Ernani Terra, em seu livro Leitura do texto literário, “o sentido do texto é construído pelo leitor”. Isso significa dizer que os textos nunca estão prontos, esperando apenas sua decodificação, já que língua não é apenas um código esperando ser decifrado. O leitor traz sempre consigo suas experiências, seu repertório, seu conhecimento linguístico para dialogar com o texto que se propõe a ler. Desse diálogo entre autor e leitor, intermediado pelo texto, surge o entendido ou às vezes, o mal-entendido, dependendo do caso.

Os textos são também produtos de uma intenção, porque não existem textos neutros, desprovidos de intenções. Todo texto é marcado pela intencionalidade, aliás, a intenção é a essência de um texto. Há textos que têm a intenção de convencer o leitor de algo, de informar sobre um fato, de emocionar pela poesia, de provocar uma ação, de convocar para participar de uma causa, de ensinar uma receita de bolo. As possibilidades são múltiplas e variadas. Com um texto, enfim, pretendemos exercer influência no leitor conseguindo sua adesão a um propósito comunicativo.

Assumir que os textos pertencem também a um gênero significa dizer, nas palavras do professor Antonio Suárez Abreu, em seu livro O Design da Escrita, que “um texto é sempre produzido em uma situação particular de interação social, seja um editorial, uma propaganda, um telefonema, uma dissertação escolar ou até mesmo um romance…”. Concluímos, então, que, se os textos são produzidos sempre em situação particular de interação, seja ela qual for, todo texto pertence a um gênero. E as possibilidades de gêneros textuais são praticamente infinitas. E antes de encerrar também é importante dizer: os textos se manifestam em diversas formas e linguagens, inclusive não verbais, como placas de trânsito ou mesmo nossos gestos. Há inclusive os hipertextos, textos que apresentam múltiplas linguagens e possibilidades de leitura.

 

RTRenato Tresolavy

Meu nome é Renato Luiz Tresolavy, sou editor de livros didáticos e fui professor de escola pública. Neste espaço do site Portuguêé Legal, gentilmente cedido pela minha amiga Carol Pereira, proponho discutir com estudantes, pais e professores assuntos que envolvem o ensino e aprendizagem de gramática, produção de textos, leitura e literatura. A cada semana, pretendo trazer aqui um tema diferente sobre o universo maravilhoso do Português.

 

A partir de hoje, nosso site passa a ter uma coluna semanal com textos de outras pessoas! O primeiro a entrar no esquema foi o Renato Tresolavy, que já enviou pra gente alguns textos que serão publicados aqui   🙂  Não percam! Eis o primeiro:   Neste primeiro texto, vamos conversar sobre o conceito de… […]

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