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19 Maio 2018

Cientistas políticos, psicanalistas, partidos aliados ou de oposição e outros grupos certamente têm suas maneiras de analisar o slogan escolhido pela equipe do presidente Michel Temer para comemorar os dois anos de governo. Vamos tentar, aqui, um viés linguístico, partindo do pressuposto de que o tropeço não foi intencional.

O primeiro aspecto digno de nota é o uso do verbo VOLTAR, que pode ter uma série de sentidos: retroceder (“Voltamos à estaca zero”), recomeçar (“Voltei a fumar”), recuperar uma posição de destaque (“O campeão voltou!”), entre outros.

O segundo é a frase “20 anos em 2”. Supondo que a ideia pretendida fosse de que “O Brasil está de volta” porque “avançou 20 anos em 2”, podemos considerar que a segunda frase seria uma explicação da primeira. Para alguns gramáticos, o ideal, nesse caso, não seria empregar uma vírgula, considerada um erro, mas dois pontos (:). Observe:

“O Brasil voltou: 20 anos em 2”

Talvez não evitasse as piadas dos opositores que acham que a frase faz mais sentido sem pontuação, mas amenizaria o efeito de estranhamento.

Há também os gramáticos para os quais a vírgula é aceitável, pois ajudaria a intercalar dois trechos justapostos. Como todos notaram, no entanto, a pontuação foi insuficiente para criar o efeito esperado. Por quê?

Primeiramente porque, sendo sucedido por uma expressão de medida temporal, o verbo “voltar” imediatamente cria a ideia de retorno a um tempo anterior. Portanto, mesmo havendo numerosas possibilidades de sentido para “voltar”, a sugestão de retorno a um período precedente que é criada pela continuação do slogan não deixa ao leitor muita escolha senão entender o verbo como indício de um retrocesso. Talvez uma alteração do pretérito para o presente (“O Brasil está de volta!”) ajudasse a amenizar o efeito.

Há, também, um fator extralinguístico a ser considerado. Aparentemente a intenção era adaptar o bordão de Juscelino Kubitschek (“Brasil, 50 anos em cinco”). O novo slogan, porém, toca em uma ideia que permeia o imaginário popular de parte dos brasileiros, aqueles que se opõem ao governo: a de que as medidas tomadas atualmente anulam avanços conquistados nas últimas décadas.

Por fim, vi que alguns leitores, ao se depararem com a frase “O Brasil voltou”, perguntaram a si mesmos: “voltou de onde?”.

Considero, portanto, que o slogan tem três grandes problemas: 1) escolha inadequada de vocábulo; 2) pontuação frágil; 3) desatenção (ou desdém) em relação a ideias que estão em embate na nossa sociedade.

Parece que o governo tem agora um novo mote: “Maio de 2016 – Maio de 2018 – O Brasil Voltou”. Melhorou para vocês?

Cientistas políticos, psicanalistas, partidos aliados ou de oposição e outros grupos certamente têm suas maneiras de analisar o slogan escolhido pela equipe do presidente Michel Temer para comemorar os dois anos de governo. Vamos tentar, aqui, um viés linguístico, partindo do pressuposto de que o tropeço não foi intencional.

O primeiro aspecto digno de nota é o uso do verbo VOLTAR, que pode ter uma série de sentidos: retroceder (“Voltamos à estaca zero”), recomeçar (“Voltei a fumar”), recuperar uma posição de destaque (“O campeão voltou!”), entre outros.

O segundo é a frase “20 anos em 2”. Supondo que a ideia pretendida fosse de que “O Brasil está de volta” porque “avançou 20 anos em 2”, podemos considerar que a segunda frase seria uma explicação da primeira. Para alguns gramáticos, o ideal, nesse caso, não seria empregar uma vírgula, considerada um erro, mas dois pontos (:). Observe:

“O Brasil voltou: 20 anos em 2”

Talvez não evitasse as piadas dos opositores que acham que a frase faz mais sentido sem pontuação, mas amenizaria o efeito de estranhamento.

Há também os gramáticos para os quais a vírgula é aceitável, pois ajudaria a intercalar dois trechos justapostos. Como todos notaram, no entanto, a pontuação foi insuficiente para criar o efeito esperado. Por quê?

Primeiramente porque, sendo sucedido por uma expressão de medida temporal, o verbo “voltar” imediatamente cria a ideia de retorno a um tempo anterior. Portanto, mesmo havendo numerosas possibilidades de sentido para “voltar”, a sugestão de retorno a um período precedente que é criada pela continuação do slogan não deixa ao leitor muita escolha senão entender o verbo como indício de um retrocesso. Talvez uma alteração do pretérito para o presente (“O Brasil está de volta!”) ajudasse a amenizar o efeito.

Há, também, um fator extralinguístico a ser considerado. Aparentemente a intenção era adaptar o bordão de Juscelino Kubitschek (“Brasil, 50 anos em cinco”). O novo slogan, porém, toca em uma ideia que permeia o imaginário popular de parte dos brasileiros, aqueles que se opõem ao governo: a de que as medidas tomadas atualmente anulam avanços conquistados nas últimas décadas.

Por fim, vi que alguns leitores, ao se depararem com a frase “O Brasil voltou”, perguntaram a si mesmos: “voltou de onde?”.

Considero, portanto, que o slogan tem três grandes problemas: 1) escolha inadequada de vocábulo; 2) pontuação frágil; 3) desatenção (ou desdém) em relação a ideias que estão em embate na nossa sociedade.

Parece que o governo tem agora um novo mote: “Maio de 2016 – Maio de 2018 – O Brasil Voltou”. Melhorou para vocês?

escrito por

Carol é mestre em Educação, especialista em Tradução e graduada em Letras (inglês e português). É coautora da coleção Circles pela editora FTD. Também trabalha com edição de livros didáticos de língua portuguesa.


  • Betty Vibranovski

    Parabéns pelo site!

    Sou revisora de textos e gostaria de convidá-los a conhecer o blog
    Português sem Mistério, em que publico dicas valiosas de português. https://portuguessemmisterio.com.br/